domingo, 18 de março de 2012

Rendezvous Bay, Anguilla, 18-03-2012

Mais uma noite que passou como se não tivesse passado. O cansaço com que acordo faz-me sentir que o dia ainda é o mesmo que acabou há seis horas com a minha aterragem num sono profundo em menos de um minuto, é o mesmo de ontem, de anteontem, do dia anterior a esse e dos anteriores. Tenho trabalhado um mínimo de 16 horas por dia, gasto duas em refeições e durmo o resto. É muito pouco para este cansaço. No entanto, estou bem disposta -- "feliz" ou "satisfeita" não se aplicam, porque a felicidade não é um estado de espírito, é uma decisão, e eu estou sem tempo para a tomar agora. Além disso, gosto de dormir sobre os assuntos, e como sinto que não durmo de todo, não me parece boa altura.

Não dei por chegarmos a Anguilla, há dois dias. A viagem de Saint Martin demora 40 minutos e pensei que não fôssemos deixar Marigot, porque uma peça da bomba que leva o combustível ao motor se partiu. A nova só chega amanhã por FedEx, e vem de sei lá onde. Numa das minhas breves idas ao convés perguntei ao capitão onde estávamos e ele fez uma cara que não consegui decifrar, mas que podia ser de a) "tão estúpida que é esta hospedeira" ou b) "pobrezinha, nem tem tempo para pensar e vir cá acima perceber que a ilha que temos à nossa frente é plana". O ponto mais alto de Anguilla é um monte com 65 metros acima do nível do mar, completamente diferente de Saint Martin, com montes e vales imponentes. À vante temos Saint Martin, a bombordo a ilha: praias paradisíacas sem gente nem civilização e praias paradisíacas transformadas em resorts térreos, que não chegam para mudar a ideia de estarmos fundeados junto a uma grande praia.

Ontem tentava explicar à minha mãe que trabalho num hotel e num restaurante ao mesmo tempo. Além de todo o trabalho que fazia, desta vez tenho de servir refeições, pôr e levantar mesas, lavar a louça ou pô-la na máquina (pratos Versace de 400 dólares cada cujo site diz "dishwasher safe", há que confiar). Felizmente, os hóspedes ontem saíram para almoçar e hoje vão também. Combinam, frequentemente, sair para jantar, mas acabam por nunca o fazer porque o pequeno T. está doente e, cá para mim, porque o chef é tão bom que não faz grande sentido desperdiçá-lo. Perdi acidentalmente dois quilos nos últimos seis dias, mas tenho comido muito, graças a P. Ontem, por exemplo, jantei duas vezes. 

O pai do pequeno T. disse-me «Tatiana, deves estar tão cansada», e eu respondi-lhe «É o meu trabalho»; ele rematou: «isso não significa que não te canses». Quando mandou a filha F. para a cama disse-lhe «Diz boa noite à Tatiana e agradece-lhe por tudo o que ela fez hoje». Comoveu-me.

Mas agora não tenho tempo para me comover. Nunca senti tão na pele o que é não ter tempo. É a vantagem de trabalhar neste regime e é isso, talvez, que me faz bem disposta. Sem sono os dias não podem senão passar num instante, porque são sempre o mesmo. Para mim, ainda é quarta-feira da semana que passou.

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