quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cartagena, Múrcia, Espanha, 30-08-2012

29-08

Não sei se li, inventei ou deturpei que em Espanha só os tesos e os turistas é que se passeiam pelas ruas antes das cinco da tarde. Nós integramos às vezes uma dessas categorias e permanentemente a outra; hoje foi dia de dupla apartenencia:  andámos pelas ruas desertas de Cartagena até o próprio sol troçar de nós e nos refugiarmos na Heladaria Reina Sofia, que não é tão boa como o Santini mas está mais perto.

A cidade tem as ruas bem tratadas e os prédios mal; eu preferiria o contrário se pudesse preferir fosse o que fosse. Como não posso, limito-me a aceitar o facto simples e linear de que o fachadismo não é, nem de longe, pecha exclusiva dos nossos autarcas. 

O calor faz da luz uma coisa branca, leitosa, como se o sorvete de limão da Heladaria Reina Sofia tivesse derretido nas praças, nos prédios, nas ruas, nas árvores.

A sudoeste de Cartagena há um cabo chamado Tiñoso. Todos os cabos deviam chamar-se assim, por muito bonitos que sejam - e este é-o, quase tanto como o de S. Vicente, que, verdade seja dita, é muito mais tinhoso.



sábado, 25 de agosto de 2012

Marina del Este, Andaluzia, Espanha, 25-08-2012

Fuengirola

Um gajo vai pelo cais de recepção da Marina de Fuengirola e a primeira coisa que vê é o café Ku-Damm (o menu inclui Goulasch e Sauerkraut). Ao lado, ou quase, há o Welcome Arms, e mais ou menos entre os dois o Schnitzel Haus. A caminho do duche ainda vê, não muito longe, o London Arms. Os turistas gostam, definitivamente, de se sentir em casa.

Em Gibraltar havia mais coisas escritas em espanhol do que aqui.

De resto, as surpresas são poucas e irrelevantes. A praga das pizzerie tem fraca expressão, por exemplo: uma só (na Marina. Aposto que a cidade está pejada delas). Os prédios são muito ligeiramente menos feios do que esperava; nem todos os bares têm televisão; há lugar na Marina em Agosto (tem havido "menos barcos este ano" em todo o lado, desde Portimão).

O dia de vela foi glorioso, o melhor em muito tempo: força 5 na alheta, sol, o S. a mostrar de novo o que tem no ventre; e é bastante. O barco é realmente espantoso de bom. Desembarcamos daqui a dias, mas lembrar-me-ei dele durante muito tempo.

Esta navegação diária (F. não gosta de navegar, muito menos à noite; faz esta viagem para não decepcionar o marido) é cansativa. Gostava de fazer dois ou três dias seguidos de mar. E se fossem semanas ainda melhor.

Uma caneca de cerveja diz-se um "tanque de cerveza". A exactidão tem uma beleza própria, que dispensa comentários.

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À chegada aos portos o calor tem sido infernal - perdão, celestial, já que tínhamos acordado, há tempos, a infernalidade do frio de Brighton. O calor aguenta-se melhor. Com mais duches e mangueiradas, menos roupa, mais copos de água fresca. À nossa frente no pontão está o O., um belíssimo Oyster 54 que era nosso vizinho em Brighton. Lembro-me do West Jetty nos dias de chuva e vento e sinto-me grata por estar a morrer de calor. Esta morte, ao contrário de outras, passará em Agosto (a menos, claro, que tenhamos a sorte de ir morrer longe, de preferência nas Caraíbas, já em Setembro ou Outubro).

F. adora os andaluzes e diz que se sente andaluz. Têm um sotaque fechado, como se falassem com a boca cheia de batatas, mas são simpáticos e atenciosos e estão sempre em festa. Vez por outra, há um de cara tão fechada como o sotaque, como a mulher que na praia de Barbate amaldiçoava o filho, um matulão de 11 anos, por alguma coisa que lhe fez. Gritou-lhe que se iria ver con su padre e, mais tarde, vimo-los passar de carro numa rotunda: o pai a conduzir, o filho ao lado e a mãe atrás a sovar o miúdo, todos numa gritaria aciganada. O quadro era tão dramático como a expressão enraivecida da mulher, mas a verdade é que nos desmanchámos a rir com aquela crise.

Há dez anos que não ia a Gibraltar. Não tendo nada a ver, fez-me lembrar St. Martin: a fúria duty free misturada com uma magnífica paisagem natural e um improvável aeroporto mesmo ao lado da marina. A Rocha é imponente e, tivesse havido tempo, tê-la-ia visitado com gosto. De resto, é surpreendente ter aquele bocadinho de Reino Unido em Espanha, em que os semáforos nos dizem "WAIT" e as bicicletas contam tanto como os automóveis.

Mas o importante foi a passagem. Pensar que há uma parte do mundo em que Europa e África, tão diferentes, quase se tocam é tão emocionante como atravessá-la. A bombordo uma tão próxima e familiar, e a estibordo a outra, mais longe e coberta de neblina, como um desejo que não se realizou. O Estreito, para quem tem destino marcado, é mais largo do que parece.

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Marina del Este

A marina é minúscula, mas muito bonita. "Há menos barcos este ano", diz-me de novo o marinheiro quando lhe pergunto se é normal haver lugar assim, sem reserva, em pleno mês de Agosto. Bem pode ser o refrão da viagem.

Qualquer dia chegamos. Temos tido sorte com os barcos - tanto o D. H. como S. são soberbos, cada um no seu estilo. Só espero que continue assim. E que as viagens sejam mais longas. Navegar oito horas por dia é, seja Deus louvado, infinitamente melhor do que trabalhar num escritório o mesmo número de horas; mas é pouco. Há muito mar por essa proa; ou, como escreveu le Clézio, "il n'y a jamais assez de mer pour les visages aigus des bateaux". Não conheço frase mais bonita, nem mais exacta para definir o que sinto cada vez que tenho de entrar num porto ao fim de tão pouco tempo no mar, e com tanto e tão bom vento para navegar.

(Post a duas mãos.)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Gibraltar, Reino Unido, 23-08-2012

I - Barbate
A vida devia ser um longo, interminável verão. Teria sido, não fora o frio e o mau tempo e a chuva desde antes da Horta. Só no Porto comecei a apanhar um tempo decente; e só agora estou no verão, no Sul. Barbate é o porto onde se espera pelo vento de Oeste (Poniente) quando se vai para o Mediterrâneo; há também quem o use para descansar de uma travessia difícil no outro sentido. 

Não vinha cá há trinta anos. Podia dizer que está diferente, claro; mas a verdade é que pouco me lembro. Na altura chamava-se Barbate de Franco e era um porto de pesca, com uma entrada difícil, estreita, e uma rua com muitos restaurantes. Agora é um porto de pesca com uma marina e uma entrada fácil, longe da cidade, com um passeio marítimo frente à praia.

Como todos os passeios marítimos do mundo é uma longa sucessão de restaurantes e tendas de produtos para turistas. 

Estamos longe do rigor pombalino de Vila Real; e perto do norte de África, aqui mesmo ao lado.

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Almôndegas de choco, tortilla de camarão, espetadas de camarão, vinho tinto, a praça, pequena, incaracterística e incompreensivelmente bonita. Tudo é bom, amo tudo, (e amo-te mais do que tudo, mas isso é outra coisa). Há que destruir urgentemente o mito de que em Portugal se come bem. Não come. Pode comer-se bem, o que é diferente. O equivalente da tasca onde estamos, em Portugal, seria uma nojo.

Referência especial para a Salazone de Mojama, ou a arte de transformar atum em excelente presunto . Isto no De Pinxos y Tapas, calle Bogavante, s/n, 11160 Barbate (Cádiz), tel.: 699 35 81 48

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O excesso de prudência, ou medo para ser mais conciso, é sem dúvida o complemento ideal da ignorância; o problema é que os medrosos confundem ter medo e saber. São coisas diferentes.

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II - Gibraltar

Gibraltar, uma vez mais. Gostaria de ter ido à Roca, mas desta vez não deu. Fica para a próxima, que não estará longe.

A cidade é sempre a mesma: turismo de compras, a Main Street com lojas de bebidas, relógios, electrónica, bebidas, tabaco, joalharia, electrónica, relógios, de vez em quando um pub. A Gibraltar Bookshop resiste heroicamente; e o Angry Friar, onde escrevo estas linhas, também.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Barbate, Andaluzia, Espanha, 21-08-2012

Brighton, Londres, Lisboa, Portimão, Vila Real de Sto. António, Cádiz, Barbate... As cidades passam como se estivéssemos num comboio: descemos para uns passeios no cais, espreitamos o café do outro lado da rua, e ala que o apito toca.

Em Londres não foi bem assim, verdade seja dita. Uma ida ao Globe, jantar num restaurante etíope, passear no British Museum, jantar tardio em Chinatown, passear à beira do Tamisa  é mais do que espreitar o café do outro lado da rua. E Lisboa também não: por muito de passagem que se esteja, nunca se está de passagem na nossa casa. Uma casa da qual não se conhecem todas as divisões, claro. Fui pela primeira vez ao café Zazou, uma sala que ainda não conhecia mas que a partir de agora vai fazer parte do roteiro.

A passagem do cabo Trafalgar foi memorável. Três nós de corrente a favor, vinte de vento contra, uma passagem estreita, muito estreita, com mar a rebentar a estibordo e terra a bombordo. Que pena tenho de quem tem medo; e que inveja tenho do medo: é a mais ditatorial das emoções, sobrepõe-se a todas as outras. Quem tem medo ganha sempre (enfim, quase sempre).

Agora estamos em Barbate, uma escala que vai ser mais longa do que as outras porque precisamos de fazer uma reparação que exige pôr o barco em seco.   Sabe bem, esta pausa. Barbate é o primeiro sinal de Sul que vemos: uma praia cheia às sete da noite, palmeiras, calor, calor, calor. Que bom é o calor à beira-mar.

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Voltar a Lisboa como se não tivesse nascido em Lisboa. E a Portugal como se já não vivesse lá -- e é verdade que não vivo, não vivo em lado nenhum. Voltar a casa é outra coisa, aos braços dos meus pais e avós, aos sorrisos dos meus irmãos, às sardinhas assadas e saladas de pimentos, ao pão com manteiga e ao café com leite. Ainda assim, sete meses não bastaram para que queira voltar. Essa coisa da crise sente-se no ar como o mar aqui tão perto, que não se vê, de tão escuro que se pôs. «Claro que não é tarde, aqui em Espanha janta-se às 23.» Eu não estou em crise; estou em trânsito. Sou, sem me dar conta, dos lugares onde estou. E quero ser de cada vez mais.

Não vi a passagem do Cabo Trafalgar. Com o sono que tinha, nem Trafalgar Square me manteria acordada. Desabituei-me de quartos nocturnos, mas quero mais - neste último que fiz vi uma estrela cadente e um pássaro mágico. Hoje apanhei um escaldão que se transformará em bronze a limpar S., um barco confortável e bom de manter de um ponto de vista feminino: pequeno, novo, limpo a priori. A armadora F. é adorável, divertida, belíssima anfitriã. Lamento muito a sensação que tenho de que não vamos cumprir o nosso objectivo: fazê-la gostar de navegar. Como pode ser que a coragem e generosidade que demonstra -- tentar acompanhar o marido numa coisa que ela detesta e ele adora -- sejam menos implacáveis do que o seu medo?

Não sei se é do calor, se da viagem (simples, fácil, quase férias), mas hoje o meu futuro é hoje (pleonasmo propositado). Às vezes surge-me más adelante e sopro-lhe, mando-o passear. A felicidade é uma coisa simples, desde que não se defina. Tudo é simples, desde que não se defina.

(Post a duas mãos. Amanhã há mais.)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Genève, Suíça, 08-08-2012

Genéve é uma cidade sólida, cheia, consistente; nada aqui parece improvisado ou temporário. Como viver numa cidade que desconhece o efémero?

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A comuna de papala-les-papalots põe objecções a um projecto que lhe vai trazer mil empregos. Há três razões. Uma delas é que o projecto tem demasiados lugares de estacionamento. Voltar a Genève é tão exótico como ir de férias ao planeta Marte.

"O eléctrico passa a cinco minutos do local previsto", explica o maire. "Não há razão para tantos lugares de estacionamento".

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É apaixonante deambular por Genève e tentar perceber porque não gosto de viver nesta cidade.

Hoje vi peixe à venda a 130 francos suíços o quilo. 109 euros. Procurei na net e vi que era peixe-galo-espinhoso, em português (em filetes, é preciso acrescentar).

(PS - este site diz que o peixe-galo-espinhoso é "pouco comercial". A net está sempre a ensinar-nos coisas quase tão apaixonantes como as deambulações por Genève.)

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É possível ser-se pontual (por exemplo) em Portugal. É irritante, desesperante, estúpido, inútil mas não é o fim do mundo. Ser desorganizado na Suíça é.

Entre as sete e as oito da noite há dois supermercados abertos em Genève (dois é uma generosidade; um e meio, talvez seja mais exacto). A partir das oito não há nada se não as mesmo assim abençoadas lojas de afegães que vendem as coisas mais básicas a preços estratoféricos.

(Enfim, é uma cidade pequena e os amigos não estão longe, por mais longe que vivam.)

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Fui ver uma exposição sobre os rios de Genève. Um dos pontos da exposição era a renaturalização de rios que tinham sido "canalizados" (entre aspas porque não sei se o termo está correcto). É curioso como a inteligência muda tudo. Por exemplo, ecologia inteligente é diferente de ecologia tout court. Assim até eu sou ecologista.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Genève, Suíça, 07-08-2012

Ao fim do dia vamos passear o cão. Escolhemos um sítio sempre diferente do campo genebrino e damos um longo passeio.

Hoje, pela primeira vez, le fond de l'air não estava quente; ainda não estava frio, mas já não estava quente. Não sei se foi à minha avó se nos Açores, a alguém que não recordo, que ouvi pela primeira vez "primeiro de Agosto primeiro de inverno". Hoje é dia sete, e já houve o primeiro sinal do fim do verão. Dias quentes virão de novo, dias de sol radioso, dias estivais; mas o inverno já pôs a ponta do pé na porta e ela não se fechará mais.

O cão - na realidade uma cadela, Leeloo de sua graça - adora os passeios. É bonita, salta e corre com leveza e elegância. É muito jovem ainda, persegue ratos imaginários (ou pelo menos parecem: nunca vi nenhum), fareja notícias invisíveis,  anda às voltas em trajectos cuja lógica nos escapa completamente.

Nós falamos do presente; muito raramente do passado. Alguns passados parece terem sido enterrados vivos, mas não sofrem por isso.

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H. recupera com toda a força dos seus vinte indomáveis anos. Hoje tivemos uma boa notícia: ao contrário do que pensávamos (e nos tinha sido dito) não ia em excesso de velocidade. Vão ser três meses aborrecidos, com um colete, mas vão ser três meses, só. Se forem mais, será pouco mais. Talvez mantenha uma dor ocasional, uma pequena lembrança de que não é imortal. Não sei se é demasiado cedo - essa lição chegou-me muito mais tarde, e aos bocadinhos - mas tem,  e temos, pelo menos a sorte de poder viver para a lembrar.

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Nunca se está verdadeiramente no campo, em Genève. Salvo raras excepções há sempre uma aldeia, uma casa, uma estrada, uma auto-estrada à vista. Apesar disso consegue ser bonito, arrumado, limpo e sobretudo calmo, que ser calmo é a função do campo.

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Um passado enterrado vivo não pode ser desenterrado, sob pena de morrer. É mais uma das coisas que se aprendem no campo, mesmo que já se o soubesse há muito tempo. Muito tempo: é preciso muito tempo para o aprender; e muitos passados.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Londres, Reino Unido, 03-08-2012

(Isto hoje vai por telegramas, como faz o patrão.)

Nunca percebi a pergunta que se faz quando há boas e más notícias (quais preferimos primeiro?) , se não há má notícia que não arruíne uma boa. Hoje não houve más notícias, só más decisões. São aquelas que a cabeça segue e o corpo rejeita. O pecado religioso em geral e cristão em particular, new-age em mais particular ainda, é a forma, não o conteúdo. Apregoar verdades sobre corpo e mente é uma sobranceria que só se perdoa aos médicos e aos filósofos -- ou talvez só aos últimos, que os primeiros estão cada vez mais desacreditados --, mas uma coisa é certa: devíamos ouvir o nosso corpo mais vezes. Quando nos pede para parar, quando nos pede para agir; quando nos parece que lhe falta um bocado e o sentimos oco ou esburacado. A cabeça arranja explicações para o que sentimos e o que sentimos é subordinado a essas explicações. Sermos incapazes de ouvir o nosso corpo é a prova de que existimos para além dele.

Assim, a premissa de hoje é uma, muito simples: o corpo (ser) e o pensamento são duas coisas diferentes, existem independentemente uma da outra, o que não significa que sejam independentes uma da outra ou de outras coisas. Isto anda tudo ligado.
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F. aparece-me com uns Wayfarer iguais aos que perdi da maneira mais estúpida na semana passada: levados por uma rajada de vento da mesa de uma esplanada para a água. O vento também é independentemente de nós e, no caso, parece ser até independente. Existe mesmo quando não sopra, na memória da minha perda. Eram uns belos óculos tartaruga. A única coisa tartaruga que alguma vez tive -- o cágado Rogério não conta e a sua morte prematura prova que nunca me pertenceu, independência que homenageei com um funeral em caixa de fósforos, a que a minha mãe assistiu, em lágrimas.
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Hoje vi rosas azuis e lembrei-me da minha mãe. Vi um preto lindo de morrer e lembrei-me da minha mãe. Senti-me desesperada e lembrei-me da minha mãe.
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Quando abro os olhos, todos os dias, olho para a escotilha e leio este sinal: «Hatch to be closed at sea». Penso no mar e em como o sinal está para a escotilha como para a cabeça. Ninguém sobrevive no mar se não a fechar vazia, depois de deixar sair o pensamento. Ao contrário de alguns lixos, o pensamento não polui o exterior e não pode ser usado como desculpa para o agravamento do aquecimento global. Que eu não sinto porque, salvo raríssimas excepções, tem feito sempre frio.
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Não sei como sobrevivi a um dia em Londres com umas calças de ganga demodées, uns ténis da nada fashion Decathlon, um casaco cinzento-fato-de-treino e sem uns Wayfarer. Mas ninguém deve ter reparado, porque as t-shirts e casacos Adidas Team GB andam por todo o lado, como os anúncios aos Jogos Olímpicos. A quantidade de pessoas parece a mesma, mas vejo ligeiramente mais japoneses. As crianças que não estão agasalhadas vestem camisolas com a Union Jack, a bandeira mais bonita do mundo, e são geralmente gordas ou bonitas (as gordas não são bonitas, mas a culpa não é delas). É uma pergunta importante: até que ponto se deve alimentar uma criança que nunca parece estar satisfeita? Segundo a minha mãe, passámos por esse dilema: tive de fazer dieta. Continuo a adorar açorda.
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Perdi o day ticket. Sete libras para o galheiro e mais quatro e trinta para voltar a Victoria. Camden Town é longe e as minhas pernas de oito quilómetros a pedalar ontem numa velha ferrugenta contra o vento não aguentariam outra vez o passeio lindo pelo canal.
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Gasto demasiado dinheiro e sinto culpa. Talvez o primeiro passo para deixar de gastar tanto dinheiro será deixar de sentir culpa. Agora não há nada a fazer. A culpa como o arrependimento é pura perda de tempo.
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Leonard Cohen não está muito bem nos meus auscultadores novos. Numa canção diz que é preciso deixar a família para trás -- «You who must leave everything that you cannot control / It begins with your family, but soon it comes round to your soul» --, na outra diz que não vale a pena falar do que nos prende -- «Let's not talk of love or chains and things we can't untie». Nunca apreciei pessoas coerentes, foi uma maneira de me apreciar mais. Agora exijo coerência dos outros como se ela me fosse possível, a mim que me sinto um saco de arroz cru.
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Grão a grão o rapaz preto e maravilhosamente simpático que está à entrada do metro de Swiss Cottage não vai conseguindo encher o balde para ajudar as crianças em África que precisam de água potável (é sempre África, já nem pergunto onde em África, seria preciso ir a um atlas de cada vez que me falassem num dos seus países, ponho a moeda e já está): a abordagem é bastante ineficaz: «aposto que consigo adivinhar a tua data de nascimento!» Depois de 17 tentativas, acerta no mês. Dou-lhe duas libras e digo-lhe «és adorável, mas não vales nada a adivinhar datas de nascimento». Responde-me com um riso que explica porque é que África existe, graças a Deus.
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F. leva-me ao café português em Camden Town onde vai beber café todos os dias. Bebo uma bica portuguesa, deliciosa, e como um pastel de nata que não é dos melhores que já comi mas é decerto o melhor que provei nos últimos sete meses -- escusado será acrescentar que foi o único. Os empregados são portugueses e, perdoem-me o aparente elitismo, diferentes de nós. Vão, decerto, à terra comer chouriças todos os agostos e trazer para casa uma garrafa de aguardente caseira. Estou cada vez mais convencida de que os lisboetas não são bem portugueses, embora apreciem chouriças e aguardente caseira. Lisboa é um país. Na mercearia-café, onde há Sumol e Nestum compro, a dez libras, uma garrafa de EA (que me ensinaram ser infalível) e a oito uma de Vinha da Defesa 2008, que nunca provei. Gasto demasiado dinheiro e adoro a palavra touriga -- nacional é-me indiferente, mas não no vinho.
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Adormeço no comboio. Leio no comboio. Saio do comboio para o autocarro. Leio no autocarro. Tenho frio no autocarro. Saio do autocarro e tenho frio no trajecto que me leva até ao barco. Sinto a cada passo o chão, os músculos das pernas doridos do exercício dos últimos dias, tento não ler as promoções dos restaurantes e o "Portuguese peri-peri" anunciado pelo Nando's. Penso em sentir para suspender o pensamento, suspendo o pensamento de suspender o pensamento e sinto a incapacidade de não pensar. Ser humano é uma doença crónica.
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Descobri que só em português usamos com esse sentido a palavra que melhor define o estado do tempo em Inglaterra: desagradável. Quando está desagradável é isso que está, e aqui está quase sempre.
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O vento aqui já só me incomoda. Para que serve? É como o pensamento. Em estado puro, indomável, para que serve? O vento que sopra aqui só me incomoda, mas incomoda também de onde vem ou para onde vai?, serve para alguma coisa noutro lugar qualquer? Isto, se fosse tão verdade como certo pensamento não servir para nada, levar-nos-ia a uma premissa melhor do que a primeira: o vento é melhor do que o pensamento. Mas não é. O vento aqui já só me incomoda. O pensamento também. Hoje não houve más notícias, só más decisões: a de não fechar a escotilha, por exemplo, porque choveu bastante (dentro do barco e da cabeça). É precisar tratar o pensamento como o vento: se vem em rajadas, deixá-lo passar, deixá-lo ir onde tiver de ir. Se for violento, abrigar-se, deixá-lo passar também. Não lhe dar muita importância. Ele é uma coisa, nós somos outra.
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O vento aqui já não me incomoda. Mas ainda estou muito incomodada.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Genève, Suíça, 02-08-2012

Hoje vi uma mulher feia. Outra coisa que não muda, nesta cidade.

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"Genève é uma cidade pequena com todas as qualidades das cidades grandes e nenhum dos defeitos", dizem os que gostam dela; "É uma cidade pequena com todos os defeitos das cidades pequenas e nenhuma das qualidades", respondem os que a detestam.

Tendo para a primeira das fórmulas, mas isso não significa que gostaria de cá viver. Nunca gostei. Contudo o familiar prazer de voltar a Genève reaparece. Nunca gostei de cá viver, mas sempre gostei de regressar após uma ausência, uma viagem. Uma cidade onde os horários dos autocarros são cumpridos com uma tolerância de dois minutos, não há mulheres feias e celebra a festa nacional a agradecer aos estrangeiros que nela vivem...

É a primeira vez que passo tanto tempo sem voltar a Genève.

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Leio num jornal a expressão "crise do alojamento". Genéve tem uma "crise do alojamento" há dezenas de anos. As razões são conhecidas: impossibilidade de construir em terrenos "agrícolas" (entre aspas porque a noção de terrenos agrícolas é vasta, muito vasta) e legislação de protecção ao inquilino, que defende quem tem um apartamento e dificulta, como em todo o lado, o acesso a eles a quem não tem.

É uma "crise" com a qual as pessoas convivem bem - se não já teriam facilitado a reclassificação de pelo menos alguns terrenos "agrícolas" (anátema) e flexibilizado a legislação de arrendamento (a esmagadora maioria da população arrenda a sua casa, não é proprietária. Ou seja: isto nunca acontecerá).

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Há uns anos Genève chegou à conclusão de que havia cada vez menos empresas estrangeiras a instalar-se no cantão e criou um organismo (ou três, se bem me lembro) para contrariar tão molesta tendência.

Os suíços podem tardar a reagir, mas quando fazem qualquer coisa fazem-na bem e o investimento estrangeiro voltou ao cantão, mais rápido e em maior quantidade do que todos esperaram. Infelizmente a perfeição não é deste mundo, e as autoridades aperceberam-se de um problema aborrecido: não havia alojamentos suficientes para alojar os funcionários das empresas que responderam positivamente àquelas iniciativas.

A primeira iniciativa do governo foi fazer um acordo com o cantão de Vaud, que tem um regime fiscal radicalmente diferente (e muito mais leve do que Genève). Não conseguiu, pelo que se voltou para a France voisine. Esta disse que sim, claro; pelo que se assistiu ao interessante desenrolar de um cenário não muito frequente, quiçá  impensável noutro país: o cantão de Genève organizava em França o alojamento dos funcionários das empresas que atraíra.

Os terrenos "agrícolas" continuam agrícolas, e os respectivos donos a receber subvenções para manter viva a "agricultura" (as aspas não são completamente justificadas. Há alguma produção agrícola em Genève, e alguma - mas muito longe de toda - consegue ser sustentada pelo mercado).

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Genève, Suíça, 01-08-2012

É estranho chegar a Genève e estar calor. "Tropical", disse hoje a rádio. É o dia nacional suíço, e a perspectiva de um ambiente "tropical" para a festa - em Genève um dos grupos é tuaregue (Tinariwen) - deu com certeza um empurrãozinho ao entusiasmo do locutor. 

A última vez que assisti a um 1º de Agosto em Genève o discurso do Maire foi para celebrar - e agradecer - a presença de estrangeiros. Desta vez há um músico suíço também, e já houve algumas especialidades nacionais: combates de vacas, por exemplo. Deve ser por causa do resultado da direita populista na últimas eleições.

Deus (e meia dúzia de pessoas) sabem que não sou de esquerda (e pouco dado a festas nacionais), mas devo reconhecer que em Genève prefiro de longe a extrema-esquerda à extrema-direita. Apesar dos inconvenientes - as rendas, por exemplo, exorbitantes devido à mirabolante protecção dos inquilinos  - Genève é uma cidade agradável.

Já foi mais, diz-me S. A insegurança aumentou bastante. Já não se pode deixar a porta de casa aberta, e tiveram de pôr portas na garagem do prédio. Há violência juvenil, também. Mas não penso que com a direita populista no poder fosse muito diferente; e haveria decerto mais tráfico automóvel e menos bicicletas nas ruas. 

De qualquer forma a verdade é que na Suíça os políticos têm pouco poder. Qualquer das suas intenções (ou ausência delas) pode ser refutada (ou instituída)  via iniciativa popular, e muitas (as que concernem os impostos, por exemplo) têm obrigatoriamente de ir a referendo.

A música não estava muito alta; nada dos exageros lusos, nessa matéria. Neste país o único exagero é a falta de exageros.

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Isto dito, Genève não muda. Há dois anos e meio que não vinha cá; duas semanas e meia. "Mais obras", diz-me Helena. "Não", respondo. "Só mudaram de sítio. Genève está em obras há pelo menos sessenta anos, talvez mais". Os cafés não mudaram de nome, de decoração, de donos nem - provavelmente - de menus; algumas ruas fecharam, outras mudaram a circulação, mas isso significa apenas que as coisas estão na mesma; as árvores no jardim em baixo da casa de S. cresceram, mas pouco, muito pouco, como se não quisessem alterar a primeira visão que dele tivemos.

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Vou ao hospital e sou recebido com um sorriso luminoso. Duas vértebras e o cóccix partidos e é como se os seus problemas se resumissem a um pelo teimoso no sovaco, ou não poder trabalhar amanhã.

Penso no "meu" hospital, em Lisboa. Na verdade não era muito diferente deste: corredores largos, limpos, sem doentes. Os hospitais portugueses reflectem bem a ambivalência do país, metade terceiro mundo metade primeiro (e não se misturam, coabitam em quartos separados).

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Talvez não se deva regressar a um lugar onde se foi feliz, mas não há nada de errado em voltar a um onde se foi infeliz. Antes pelo contrário.

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O francês é a língua mais bonita que conheço, a que vai mais longe na maldade e melhor exprime a paixão.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 31-07-2012

Começo a conhecer Brighton; não existe. É o cenário de uma peça de teatro da qual o autor não consegue acertar no tempo. O futuro vai ser assim: ruas e prédios antigos conservados como se tivessem sido construídos ontem; "tradicional", "orgânico", "free range" antes de todos os artigos à venda (incluindo cerveja: lager orgânica; ou cabeleireiros: organic hairdressing. Que raio sera um cabeleireiro orgânico? Organic bullshit?); sapatos vegetarianos; lojas de bicicletas a cada esquina, cafés bares restaurantes pubs com comida de tudo quanto é sítio.

Ou talvez não seja o futuro, talvez seja só o presente e qualquer dia acaba e passa a outra coisa, move on, o futuro já acabou, chegámos ao passado, para o qual tudo parece apontar, para onde todos parece quererem ir.

domingo, 29 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 29-07-2012

O Paredão aqui chama-se Madeira Walk. O nome é mais bonito, sem dúvida; mas o trajecto não. Começa na Marina - pelo menos para quem vive num barco - e vai até ao Brighton Pier, um Luna Park sobre pilotis que é fascinante pelo simples desfasamento: que faz um parque de diversões no meio do mar, em cima de centenas daquilo que à distância parecem palitos de fósforo?

Contra o sol poente é lindo, talvez seja a resposta.

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Voltou o inverno. É como se a natureza se esbulhasse toda para nos explicar que ficar aqui não é uma boa ideia; ou que o aquecimento global só peca por tardar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 25-07-2012


Cores: começo pelo céu à minha esquerda, de um azul que as lentes polarizadas tornam mais escuro do que realmente é; passo para o branco dos edifícios vitorianos, eduardianos, georgianos (não há um único edifício contemporâneo na beira-mar entre o centro de Brighton e a Marina); continuo pelo castanho da muralha que retem a falésia, o cinzento da estrada no qual uma jovem feia e branca como um espectro faz uma fotografia - ou será um travelling? - em cima de uma skate board; à direita a praia é amarelo escuro, quase castanho. O mar e o céu fecham o círculo, quase da mesma cor.

Tudo isto teria de ser fotografado a preto e branco para se dar uma ideia correcta de como é.

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Foi este povo que "inventou" o vinho do Porto, o da Madeira, o Bordeaux.

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O calor entra-me na pele como se o ar fosse água quente; caminho pelo seafront e diluo-me nele, nas cores, nas pessoas que me rodeiam.

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Estou aterrado numa marina de 1600 lugares; sinto-me como um eunuco numa orgia.

A verdade é que preciso de voltar para o mar; e contra verdades não há factos, nem palavras, nem o que quer que seja.

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Já estive lá é uma das expressões mais bonitas que conheço em português; em inglês seria I've been there, e é igualmente bonita. Tal como em francês, italiano, espanhol ou qualquer outra língua.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 24-07-2012

A viagem de Brighton para Lisboa foi má até Viana do Castelo; a semana em Lisboa passou a correr, a correr de mais; voltei para uma Brighton fria e chuvosa. Mas agora, faz hoje dois dias - ou três? - o verão começou. Vai ser curto, é certo: este fim-de-semana a coisa vai começar a piorar; mas estes dias têm sido magníficos. Da viagem no S. lembro-me dos bons momentos; os maus foram para o arquivo geral. A semana em Lisboa, tão curta, tão boa, com tantos passeios de bicicleta em tão pouco tempo. Para que servem os maus momentos? Que fazer deles se não esquecê-los, mandá-los para o arquivo para futuras referências, aprender com eles que o importante são os bons e não os maus?

Procuro trabalho em Brighton, mas há pouco. Esta combinação de falta de verão seguida de uma total falta de vento é bonita para umas coisas e má para outras. Bonita para os fins de dia como o de ontem; chata porque se ouve com frequência "estamos com pouco movimento". Bolas, não é movimento que falta, nesta marina.

É preciso imaginar um dia sem vento. Zero Beaufort, zero nós, zero metros por segundo, zero na medida que quiserem. Faltam duas horas para a noite chegar, o sol já está baixo mas o céu ainda está azul até perto do horizonte; aí fica uma mistura de cor-de-laranja com cor-de-rosa. A linha do horizonte não é claramente discernível, mas sabemos que há mar porque vemos dois navios, iluminados pelo sol e portanto eles também cor-de-laranja-cor-de-rosa a flutuar numa coisa que tem exactamente a mesma cor que o céu e é lisa como se tudo aquilo fosse um cristal com tons difusos e cores indescritíveis.

Brighton é uma cidade balnear, rica, bonita. T. dizia-me "é o único sítio do reino Unido onde poderia viver, para além da cidade onde nasci [Bristol]". Não conheço Bristol e só percebo essa história da cidade onde nasci porque nasci em Lisboa, uma cidade na qual se pode, e deve, viver, passar, nascer e morrer. Mas no que toca a Brighton tinha razão: é uma cidade onde se pode viver, apesar deste verão.

T. dizia-me ainda que Brighton é assim porque é a capital da cultura gay do Reino Unido. Mais provavelmente é a capital da gayice do Reino Unido porque é assim: bonita, animada, criativa, variada. Mignonne, e meio morta se fosse francesa; mignonne e viva porque é inglesa.

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Continuo a trabalhar no D.H., metade para agradecer ao armador a hospitalidade (paga, mas barata), e metade para estar ocupado. Hoje foi a vez da fuga de água no circuito de água doce; ontem, da corrente de terra. Temos frigorífico e podemos deixar a bomba de água ligada. Quanto mais trabalho neste barco mais gosto dele. Há barcos como mulheres: foram feitos para nós. Ambos tardam em ser encontrados; mas isso deve ser de propósito: precisamos de termos de comparação em número e qualidade suficientes.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Lisboa, Portugal, 19-07-2012

Como estar em Lisboa de passagem sem transformar a estadia (a passagem) numa peregrinatio ad loca memoriam? Ou, pior ainda, numa peregrinatio ad loca infecta

Como estar de passagem nas nossas raízes?

Evitando voltar a tudo o que se conhece, tentando olhar para tudo o que não se conhece com olhos de quem não conhece (como se fosse possível).

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Há sítios onde se pode viver e sítios onde se deve viver. A distinção é difícil de definir e fácil de ver. Lisboa está nos lugares de topo em ambas as listas.

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Há cordões umbilicais que nos ligam a certos lugares. O Tejo tão claro, tão fundido no resto da paisagem; o ar tragicamente sério dos portugueses (ou seriamente trágico, à escolha); a luz, meu Deus, esta luz que me faz pensar que estou a mergulhar quando desço a rua do Alecrim de bicicleta. As ruas que não conheço, tão familiares como as que percorri milhares de vezes.

Somos de um lugar, por muito que ele fuja de nós, ou nós dele.

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Está um calor de torrar; no restaurante (especialidade: sandes) entram magotes de engravatados, encamisados, encasacados. Formais, tristes, sérios. Penso que já tentei pertencer a essa tribo e tenho vergonha (de mim; eles são todos muito bem).

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ASAE: peço um bagaço caseiro como se estivesse a pedir uma dose de LSD.

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A rapariga olha para todos os outros clientes como eu: um olhar simultaneamente perscrutador e tímido. Verá a mesma coisa que eu vejo?

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Penso nesta cidade que amo como se não tivesse nascido nela. Estar de passagem é uma sorte, uma bênção: estamos bem onde quer que estejamos, de onde quer que sejamos. 

domingo, 8 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 08-07-2012 (e vão 100)

Com ou sem Bosão de Higgs, é fácil provar a existência de Deus. Em cinco dias de trabalho, houve apenas um em que chovia à minha hora de saída, e nem sequer foi hoje. 

Fazer a Madeira Drive à beira-mar, a um domingo, é um passeio apaixonante. Ao longo de pouco mais de dois quilómetros é possível passar pela Era Vitoriana, contemplando as centenas de pessoas que ainda se passeiam no Brighton Pier (um pontão de 533 metros que, no séc. XIX, se tornou na principal atracção da cidade), entrar na Era Industrial e ver o Volk's Electric Railway, o mais antigo caminho-de-ferro eléctrico do mundo em funcionamento (data de 1883), lembrar Londres com a amálgama de hipsters com quem nos cruzamos e uma roda gigante ao jeito da London Eye (não será por isto, mas também não é por acaso que os ingleses chamam a Brighton "Little London"), sentir saudades do Paredão e saber que apesar da gente a pedal ou com cara de praia (mesmo se vestida até ao pescoço) não é possível dar um salto à Azarujinha e ver se a piscina encheu, se lá está a senhora que usa Coca-Cola em vez de bronzeador, ou se recuperaram o café onde se comiam uns caracóis tão bons. 

Do Pier até casa, o DARK HORSE, demoro 25 minutos. No outro dia fui pela praia e demorei duas horas. Em vez de areia, a praia tem pedras, a maioria do tamanho de um punho, ou um pouco maior. Os pés enterram-se nas pedras e é como se estivéssemos a andar no Inferno de Dante desenhado por Doré: além de estar frio (cada vez mais me convenço de que se o Inferno é quente é para lá que quero ir), as almas-penadas agarram-se-nos às pernas a pedir boleia. Nos últimos 40 minutos dessa viagem decidi provar a mim mesma que era leve, e tentei caminhar enterrando os pés o mínimo possível -- tudo o que alcancei foi uma leveza pesada, mas talvez seja apenas uma questão de sapatos.

Os ciclistas são velozes e fazem-me alguma inveja. As bicicletas aqui são caras, principalmente as maravilhosas que vi no Stables Market em Camden Town, cujos preços me obrigariam a trabalhar num mega-iate, sítio onde não preciso de uma bicicleta para nada; vou-me apercebendo, porém, de que em libras esterlinas não existe o conceito de barato -- é affordable ou não é, e geralmente não é.

Por falar nisso, ainda não sei quanto vou ganhar. C., a minha chefe, tem estado fora. Tem uma atitude que me agrada: disse-me imediatamente como queria as coisas feitas, corrigiu-me quando as fiz mal, aconselhou-me quando quase as fiz mal, elogiou-me quando foi pertinente. «OK, não fazes flores no latte mas o leite está muito bom». Hoje, ao contrário de ontem, quase não tivemos clientes. À hora de almoço aproveitei uma aberta e fui sentar-me lá fora, olhando para o sítio onde trabalho e tentando perceber o que lhe falta. É uma coffee shop com um café excepcional, na qual ter clientes é uma excepção. Existem três Starbucks e mais uns símiles na zona, mas não numa rua tão gira e tão cheia de gente. Pergunto-me se será da ausência de sofás -- por motivos freudianos, certamente, o sofá tornou-se num chamariz comercial; ninguém entra e muito menos fica num sítio onde não haja um sofá.

Tive tempo para varrer o andar de cima, que não devia ter sido varrido há pelo menos 20 anos, e para limpar a casa-de-banho, uma das mais gratificantes tarefas que levei a cabo nos últimos tempos. Num mega-iate com hospedeira permanente limpa-se, geralmente, o que já está limpo e os resultados são decepcionantes -- a diferença entre estar limpo e "a brilhar" pode, por vezes, ser muito ténue --, ao passo que num café britânico com pessoal a menos é possível ver a diferença em tudo o que se limpou, mesmo que chamemos limpar a passar um pano húmido por cima de uma prateleira cuja cor já se confunde com a do pó. A verdade é que o sítio é muito agradável e o aspecto tão rústico de tudo (um chão de tábua que nunca foi esfregado pode parecer apenas um chão de tábua vindo de um celeiro com cem anos na Carolina do Norte, como eram as paredes do Rooster's, em Charlotte) disfarça a sujidade.  Felizmente, a Food Standard's Agency não é a ASAE e é fácil para o café mais simples (sem sofás) ter as portas abertas sem se parecer com um laboratório de análises clínicas. As sanduíches do sítio onde trabalho são feitas e embaladas à mão, medimos a temperatura do que temos no frigorífico de três em três dias e a placa onde fritamos o bacon explode se a borrifarmos com detergente. A louça, no entanto, é lavada duas vezes: uma à mão e outra à máquina -- dependendo do funcionário de serviço ao lavatório uma sai melhor do que a outra, ou vice-versa.

São oito horas e acabei de jantar. O M. teve a delicadeza de preparar o jantar para mim. Sente-se hoje particularmente sozinho, porque G., o tripulante que restava além de mim, foi viver para um hostel. Também sentirei a sua falta -- é gente boa. A marina não é o sítio mais confortável do mundo, mas não é, de longe, o menos confortável, sobretudo se excluirmos a probabilidade de apanhar uma pneumonia sempre que fazemos o trajecto de 50 metros da doca à zona coberta. Os pores-do-sol aqui surpreendem-me de dia para dia. M. comentava, há tempos, que nem nas Caraíbas os viu assim. A explicação é simples,* e não precisa de Bosão de Higgs: Deus existe e está em todo o lado.

*A Oxford Comma também.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

La Coruña, Galícia, Espanha, 06-07-2012

Esta cidade é podre de boa. É uma versão sexy do Porto.

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Um [Bavaria] 50 entra, seguido por um arrastão. Ambos se cruzam com uma pequena lancha que sai para a pesca, proavelmente, ou para um copo na baía. No cais do granel um graneleiro de 40,000 toneladas descarrega, ou carrega, não presto atenção suficiente para discernir; ao fundo uma coisa indescritível, parece um cruzamento entre uma draga e um navio do short haul do norte da Europa; do outro lado um petroleiro de talvez 20 ou 30 mil toneladas. Tudo isto rodeado pela cidade, prédios que num arremedo de atopia me fazem pensar numa S. Francisco dos pequeninos.

Talvez as autoridades da APL pudessem dar aqui um salto para ver como se consegue integrar um porto numa cidade sem terminais de contentores. Ou, melhor ainda, a população de Lisboa, para contestar decisões absurdas com conhecimento de alternativas possíveis.

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Gostar do que se faz - ou fazer o que se gosta, a ordem dos factores é arbitrária -  é remédio santo. Cura tudo, desde unhas encravadas às mais perniciosas e profundas dores de cabeça. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

La Coruña, Galícia, Espanha, 05-07-2012

Está um verão como já não se fazem invernos. A malta do "aquecimento global" (entre aspas porque acabo de ligar o aquecimento do bote) deve estar nas nuvens.

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E tem mulheres. Bonitas, sorridentes, alegres como se a cidade não passasse, apesar da chuva e do frio, do gigantesco cenário de uma publicidade à vida, ou à alegria.

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Fui jantar e na volta perdi-me. Sabia que me ia perder pela maneira como andava na rua: o mar estava à minha direita e não precisava de olhar para mais nada. Mas em La Coruña há sempre mar à nossa direita (excepto numa parte que de qualquer maneira é longe, curta e desinteressante), e fui parar ao mau mar, ao lado errado do mar. Mas o outro não fica longe, graças a Deus.

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Tapas a 1,60 euros. Com três fica-se jantado, com quatro mantém-se o peso e com cinco contribui-se para a casa da nutricionista, tão bonita, coitada.

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É uma das muitas ruas em La Coruña que se parecem com a do João do Grão, na Baixa de Lisboa. Mas aqui há infinitamente menos turistas do que em Lisboa, os menus são em espanhol, as caras e as conversas são galegas. Ontem "fui-me de tapas"; hoje vou-me de polvo e de povo. O Mesón O Galego, na Calle Franja 56 só tem o habitual defeito - que de tão habitual está quase a perder o apesar de tudo nobre estatuto de defeito - da televisão. De resto é perfeito: uma média de idades igual ou pouco superior à minha, clientes que nasceram na Galícia há pelo menos três gerações, decoração inexistente. Quem aqui vem vem para comer, e sabe o que quer comer.

Descubro uma coisa chamada Ribeiro Turvio, vinho branco servido numas taças de cerâmica, acre, jovem, (surpreendentemente) turvo, que nos fica pela boca até à eternidade, apesar da juventude; o polvo estava excelente, os boquerones também. O jantar acaba com um caldo à galega, outro meio jarro de Ribeiro Turvio e a ideia de que não ter um domicílio fixo faz de um gajo o melhor dos cidadãos: estamos em casa onde quer que estejamos.


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Ter prazer com as coisas simples aprende-se. É um percurso, no fundo. Começa por ter prazer com as coisas complicadas.


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A ASAE do imobiliário em Portugal chama-se (ou chamava-se, quem acompanha que me elucide) IGESPAR. Foi durante alguns anos dirigida por um inteligentíssimo imbecil cuja grande aspiração na vida era ser ministro [quase conseguiu, mas isso é outra história]; o qual prolongou as políticas do imbecil que o antecedeu e - de certeza - deixou as bases para a daquele que lhe sucedeu no cargo. O IGESPAR acha, ou achava, que os monumentos históricos têm "de respirar", e durante anos impediu coisas como, por exemplo, o soberbo passeio que vai de Cascais à Marina passando pelas bases do forte.

Eu não acho. Os edifícios antigos - como o dito passeio e grande parte da cidade de La Coruña ampla e desenvergonhadamente demonstram  - devem ser tratados como os modernos, o vinho tinto ou as mamas das senhoras (ou as pilas dos senhores, para quem gosta, já agora): à discrição dos utentes.   

Se antigamente houvesse um IGESPAR hoje as cidades não teriam interesse nenhum.

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O café de Macondo não tem televisão; em contrapartida tem excelente música, uma invejável colecção de arte nas paredes, é lindo e eu acho injusto só o ter conhecido hoje (c/ san Andrés 106).

Como de resto o café Central, última escala antes de chegar a bordo, trajecto perigoso e tão cheio de eternidades como o golfo da Biscaia, mais moderno mas com a melhor crema (Hijos de Ribeira, este nome merece ser fixado) que até hoje provei.

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As cidades interessantes são como as senhoras bonitas, não é? Descobrem-se milímetro a milímetro, eternidade a eternidade. Demora vidas, conhecê-las.

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Está uma exposição na cidade chamada (não reproduzo o grafismo) Maria Helena Vieira da Silva Arpad Szenes Traxectorias Paralelas. As cidades estrangeiras fazem de nós melhores pessoas, é certo. Vivi anos a minutos do Museu Vieira da Silva em Lisboa e nunca lá fui (admitidamente, uma das vezes que tentei  estava fechado; as outras devo ter ficado pelo caminho). É uma exposição relativamente pequena (cerca de cinquenta obras) mas que me fez descobrir Arpad Szenes e algumas obras de juventude de Vieira da Silva. E ter a certeza de que quando chegar a Lisboa vou ao Museu Vieira da Silva. Afinal sou quase tão estrangeiro em Lisboa como noutro lado qualquer. Ou serei, um dia, inch'Allah.

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Largo sábado, com a maré da manhã. Espero que em Portugal esteja a chover menos, e faça menos frio. E que um dia alguém se lembre de organizar uma conferência internacional chamada Lisboa + 25 (graus centígrados), para que os aquecimentistas vislumbrem os disparates que há alguns anos apregoam sem parar.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

La Coruña, Galícia, Espanha, 04-07-2012

É preciso ser honesto: até ao segundo dia de viagem pensei que ela não ia terminar nunca, que ia bolinar no Golfo da Biscaia (apoiado pelo motor, a maioria das vezes), com frio e chuva e cinzento como a maior parte da minha vida pelo resto da minha vida; mas depois tivemos sol, o vento rondou um bocadinho e tudo ficou um muito melhor - a tal ponto que vi, no segundo dia pela primeira vez, o fim da viagem.

O qual mudara, entretanto. Deixou de ser Vigo e passou a ser La Coruña. É uma sorte, gosto mais desta do que daquela, que é uma cidade cinzenta e fechada. Ao princípio La Coruña parece uma ilha, tem mar por todos os lados; depois lembramo-nos da carta: La Coruña é uma península. Continuamos a passear e passa a ser uma grande península com muitas pequenas penínsulas agarradas.

É um fractal, geográfica, arquitectural, socialmente. Há prédios modernos nas zonas antigas, prédios antigos nas zonas modernas, as coisas imbrincam-se umas nas outras e tudo se reproduz a escalas cada vez menores. Há barcos de pesca na marina (porto de recreio, mais apropriadamente), mesmo no centro da cidade, como se as traineiras estivesse atracadas em Santos. Do outro lado fica o cais do granel e ao lado o dos cruzeiros. Há mar por todos os lados e cafés, bares,  restaurantes com nomes irresistíveis, como Bebedeiro de rua ou Café do Tio Ovídio (um gajo imagina Ovídio atrás do balcão a dizer "Não se deseja aquilo que não se conhece" - não é verdade: ama-se o que não se conhece, só se ama o que não se conhece, só se ama enquanto não se conhece; ou "os anos aproximam-se silenciosamente" - é verdade, é sorrateiro o andar dos anos).

Há lojas antigas com empregados jovens e lojas novas com empregados velhos, ruas estreitas com carros e largas sem eles, há alegria e tapas e raciones, prédios lindos, boa disposição.

E chuva, claro. Verdade seja dita: hoje foi pouca. A tarde esteve linda e cheia de sol, que se reflectia nos sorrisos das raparigas e as fazia andar ligeiras, sorrir e seduzir.

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Saio na sexta-feira. É bom largar de um porto de que se gosta muito; melhor do que de um que se detesta. Não sei porquê, mas é assim, Sempre foi. Pelo menos para mim.

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São duas da manhã. As traineiras largam para o mar. O SOGNO agita-se. Vou deitar-me e sognare. 

domingo, 1 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 01-07-2012


Ouço, do beliche, os brandais da marina inteira abanando, fustigados pelo vento. Penso como seria bom ouvir, como ouvi no mar, aquele véu de vento e pano sem interferências, a não ser a da rebentação -- a espuma tem som, já lhes disse? Olho o mar, ainda inquieto, e vejo-te. Vejo-me também, longe daqui.

Este ano nasceu bêbedo e entaramela as estações todas. Bela desculpa.

Está um frio dos diabos. Chove e faz sol, mas chove sempre mais do que faz sol. Hoje foi uma excepção, mas o frio era tanto que o Sol quase não contava. O meu cabelo é incompatível com o vento nestas quantidades, e o meu guarda-roupa (enfim, guarda-roupa é um eufemismo, devia dizer a mala de que tenho vivido nos últimos seis meses) com a falta de calor. Tive de comprar um casaco e umas calças, e a única camisola de manga comprida que consegui encontrar. Meteorologicamente, os ingleses vivem em negação. Calções, mangas curtas, saias, vestidos e sandálias é tudo o que se encontra nas lojas. Londres estava linda, banhada de sol, chuveirada de sol, imundada (piada higiénica intended) de sol, e assim sucessivamente. Mas nem por isso a porra do frio se foi, uma das razões para me querer ir embora o mais depressa possível, mas não é, obviamente, uma razão suficientemente forte. (As outras não são partilháveis.)

O trabalho é uma seca. Foi giro, quero dizer, aprender a fazer lattes, machiattos, capuccinos, americanos, mochas, flat whites e assim, mas não é para a profissão de barista que estou orientada. Nem para as sanduíches e saladas que vou fazer amanhã, nem para o salário que vou ganhar, menos de metade do que ganhava no J. Se a minha condição mo permitisse, ficaria aqui a tratar dos assuntos que cá me deixam sem trabalhar, a gastar a velocidades só recriáveis no grande colisionador de hadrões tudo o que ganhei com enorme sacrifício nos últimos meses. Mas não: sou pobre e viver sem "o dinheirinho certo ao fim do mês" causa-me aflições indescritíveis e indescritas, por isso, em todos os manuais de diagnóstico disponíveis. Como dizia a minha bisavó Joana sobre si mesma, «nasci para ser rica». Sim, porque também não gosto de trabalhar em geral, e não apenas em particular. Como fazer, então, para ser feliz?

Muita gente diria: encontra algo que gostes de fazer. O G., que conheci em Antígua e que agora está em Palma, canta e toca guitarra (bastante bem, por sinal) porque detesta trabalhar. E, quando questionado sobre aquilo que faz, confessa que também não gosta particularmente de fazer música, mas que a faz porque lhe parece a menos dolorosa das escolhas. Vejo-me a fazer o mesmo, mas não sem antes esgotar todas as hipóteses luteranas de ganhar a vida. Já estou a ver (e a sofrer) o trabalho que me vai dar não ter trabalho. Ser procrastinador é uma condição danada.

Porque não escrevo eu de coisas agradáveis?

Ouço, do beliche, os brandais da marina inteira abanando, fustigados pelo vento. Penso como foi bom ouvir, como ouvi no mar, aquele véu de vento e pano sem interferências, a não ser a da rebentação -- a espuma tem som, já lhes disse? Olho o mar, ainda inquieto, e vejo-te. Vejo-me também, longe daqui.

Este ano nasceu bêbedo e entaramela as estações todas. Tens razão -- felizmente, estamos em Julho, o que significa que já passou mais de metade.

Está um frio dos diabos. Chove e faz sol, mas chove mais do que faz sol, o que sempre contribui para que a temperatura não desça ainda mais. Hoje foi uma excepção, esteve um lindo dia de chuva. O meu cabelo é incompatível com o vento nestas quantidades, mas o vento não é quantificável; e o meu guarda-roupa (enfim, a mala de que tenho vivido nos últimos seis meses) com a falta de calor, o que me dá um óptimo motivo para ir às compras. Um casaco e umas calças e a única camisola de manga comprida que consegui encontrar, gira como tudo (de marinheira, vejam lá). Meteorologicamente, os ingleses vivem em negação, o que faz deles um povo extremamente positivo. Calções, mangas curtas, saias, vestidos e sandálias é tudo o que se encontra nas lojas. Londres estava linda, banhada de sol, chuveirada de sol, imundada (piada higiénica intended) de sol, e assim sucessivamente. Mas nem por isso o frio se foi, e o frio não é, obviamente, uma razão suficientemente forte para me querer ir embora. (As verdadeiras razões não são partilháveis.)

O trabalho foi giro. Aprender a fazer lattes, machiattos, capuccinos, americanos, mochas, flat whites foi o realizar de um sonho adolescente: ser barista por um dia. Vou poder cozinhar no meu novo trabalho, mesmo que seja só por umas semanas, ganhar o suficiente para viver e sair antes de o dia acabar num sítio adorável no centro de Brighton, os Kensington Gardens. A felicidade depende pouco das circunstâncias -- Ortega y Gasset discordaria, mas não consta que fosse feliz. O homem é ele, a sua circunstância que se lixe.

A seguir gostava de ir para Palma de Maiorca cantar com o G., que conheci em Antígua. G. não gosta de trabalhar e por isso canta e toca guitarra (bastante bem, por sinal). Eu também não gosto de trabalhar e G. inspira-me por isso. Vejo-me a fazer o mesmo, um dia: trabalhar sem trabalhar, diminuir essa obrigação fazendo algo de que gosto. O único senão é que até para não trabalhar é preciso trabalhar, mas como diria Lutero «o trabalho nunca matou ninguém» (correcções à citação são muito bem-vindas).

No, we cannot cling to the old dreams anymore. Venham os novos (e os velhos, mas que nenhum me dê conselhos).