quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Genève, Suíça, 01-08-2012

É estranho chegar a Genève e estar calor. "Tropical", disse hoje a rádio. É o dia nacional suíço, e a perspectiva de um ambiente "tropical" para a festa - em Genève um dos grupos é tuaregue (Tinariwen) - deu com certeza um empurrãozinho ao entusiasmo do locutor. 

A última vez que assisti a um 1º de Agosto em Genève o discurso do Maire foi para celebrar - e agradecer - a presença de estrangeiros. Desta vez há um músico suíço também, e já houve algumas especialidades nacionais: combates de vacas, por exemplo. Deve ser por causa do resultado da direita populista na últimas eleições.

Deus (e meia dúzia de pessoas) sabem que não sou de esquerda (e pouco dado a festas nacionais), mas devo reconhecer que em Genève prefiro de longe a extrema-esquerda à extrema-direita. Apesar dos inconvenientes - as rendas, por exemplo, exorbitantes devido à mirabolante protecção dos inquilinos  - Genève é uma cidade agradável.

Já foi mais, diz-me S. A insegurança aumentou bastante. Já não se pode deixar a porta de casa aberta, e tiveram de pôr portas na garagem do prédio. Há violência juvenil, também. Mas não penso que com a direita populista no poder fosse muito diferente; e haveria decerto mais tráfico automóvel e menos bicicletas nas ruas. 

De qualquer forma a verdade é que na Suíça os políticos têm pouco poder. Qualquer das suas intenções (ou ausência delas) pode ser refutada (ou instituída)  via iniciativa popular, e muitas (as que concernem os impostos, por exemplo) têm obrigatoriamente de ir a referendo.

A música não estava muito alta; nada dos exageros lusos, nessa matéria. Neste país o único exagero é a falta de exageros.

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Isto dito, Genève não muda. Há dois anos e meio que não vinha cá; duas semanas e meia. "Mais obras", diz-me Helena. "Não", respondo. "Só mudaram de sítio. Genève está em obras há pelo menos sessenta anos, talvez mais". Os cafés não mudaram de nome, de decoração, de donos nem - provavelmente - de menus; algumas ruas fecharam, outras mudaram a circulação, mas isso significa apenas que as coisas estão na mesma; as árvores no jardim em baixo da casa de S. cresceram, mas pouco, muito pouco, como se não quisessem alterar a primeira visão que dele tivemos.

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Vou ao hospital e sou recebido com um sorriso luminoso. Duas vértebras e o cóccix partidos e é como se os seus problemas se resumissem a um pelo teimoso no sovaco, ou não poder trabalhar amanhã.

Penso no "meu" hospital, em Lisboa. Na verdade não era muito diferente deste: corredores largos, limpos, sem doentes. Os hospitais portugueses reflectem bem a ambivalência do país, metade terceiro mundo metade primeiro (e não se misturam, coabitam em quartos separados).

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Talvez não se deva regressar a um lugar onde se foi feliz, mas não há nada de errado em voltar a um onde se foi infeliz. Antes pelo contrário.

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O francês é a língua mais bonita que conheço, a que vai mais longe na maldade e melhor exprime a paixão.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 31-07-2012

Começo a conhecer Brighton; não existe. É o cenário de uma peça de teatro da qual o autor não consegue acertar no tempo. O futuro vai ser assim: ruas e prédios antigos conservados como se tivessem sido construídos ontem; "tradicional", "orgânico", "free range" antes de todos os artigos à venda (incluindo cerveja: lager orgânica; ou cabeleireiros: organic hairdressing. Que raio sera um cabeleireiro orgânico? Organic bullshit?); sapatos vegetarianos; lojas de bicicletas a cada esquina, cafés bares restaurantes pubs com comida de tudo quanto é sítio.

Ou talvez não seja o futuro, talvez seja só o presente e qualquer dia acaba e passa a outra coisa, move on, o futuro já acabou, chegámos ao passado, para o qual tudo parece apontar, para onde todos parece quererem ir.

domingo, 29 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 29-07-2012

O Paredão aqui chama-se Madeira Walk. O nome é mais bonito, sem dúvida; mas o trajecto não. Começa na Marina - pelo menos para quem vive num barco - e vai até ao Brighton Pier, um Luna Park sobre pilotis que é fascinante pelo simples desfasamento: que faz um parque de diversões no meio do mar, em cima de centenas daquilo que à distância parecem palitos de fósforo?

Contra o sol poente é lindo, talvez seja a resposta.

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Voltou o inverno. É como se a natureza se esbulhasse toda para nos explicar que ficar aqui não é uma boa ideia; ou que o aquecimento global só peca por tardar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 25-07-2012


Cores: começo pelo céu à minha esquerda, de um azul que as lentes polarizadas tornam mais escuro do que realmente é; passo para o branco dos edifícios vitorianos, eduardianos, georgianos (não há um único edifício contemporâneo na beira-mar entre o centro de Brighton e a Marina); continuo pelo castanho da muralha que retem a falésia, o cinzento da estrada no qual uma jovem feia e branca como um espectro faz uma fotografia - ou será um travelling? - em cima de uma skate board; à direita a praia é amarelo escuro, quase castanho. O mar e o céu fecham o círculo, quase da mesma cor.

Tudo isto teria de ser fotografado a preto e branco para se dar uma ideia correcta de como é.

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Foi este povo que "inventou" o vinho do Porto, o da Madeira, o Bordeaux.

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O calor entra-me na pele como se o ar fosse água quente; caminho pelo seafront e diluo-me nele, nas cores, nas pessoas que me rodeiam.

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Estou aterrado numa marina de 1600 lugares; sinto-me como um eunuco numa orgia.

A verdade é que preciso de voltar para o mar; e contra verdades não há factos, nem palavras, nem o que quer que seja.

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Já estive lá é uma das expressões mais bonitas que conheço em português; em inglês seria I've been there, e é igualmente bonita. Tal como em francês, italiano, espanhol ou qualquer outra língua.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 24-07-2012

A viagem de Brighton para Lisboa foi má até Viana do Castelo; a semana em Lisboa passou a correr, a correr de mais; voltei para uma Brighton fria e chuvosa. Mas agora, faz hoje dois dias - ou três? - o verão começou. Vai ser curto, é certo: este fim-de-semana a coisa vai começar a piorar; mas estes dias têm sido magníficos. Da viagem no S. lembro-me dos bons momentos; os maus foram para o arquivo geral. A semana em Lisboa, tão curta, tão boa, com tantos passeios de bicicleta em tão pouco tempo. Para que servem os maus momentos? Que fazer deles se não esquecê-los, mandá-los para o arquivo para futuras referências, aprender com eles que o importante são os bons e não os maus?

Procuro trabalho em Brighton, mas há pouco. Esta combinação de falta de verão seguida de uma total falta de vento é bonita para umas coisas e má para outras. Bonita para os fins de dia como o de ontem; chata porque se ouve com frequência "estamos com pouco movimento". Bolas, não é movimento que falta, nesta marina.

É preciso imaginar um dia sem vento. Zero Beaufort, zero nós, zero metros por segundo, zero na medida que quiserem. Faltam duas horas para a noite chegar, o sol já está baixo mas o céu ainda está azul até perto do horizonte; aí fica uma mistura de cor-de-laranja com cor-de-rosa. A linha do horizonte não é claramente discernível, mas sabemos que há mar porque vemos dois navios, iluminados pelo sol e portanto eles também cor-de-laranja-cor-de-rosa a flutuar numa coisa que tem exactamente a mesma cor que o céu e é lisa como se tudo aquilo fosse um cristal com tons difusos e cores indescritíveis.

Brighton é uma cidade balnear, rica, bonita. T. dizia-me "é o único sítio do reino Unido onde poderia viver, para além da cidade onde nasci [Bristol]". Não conheço Bristol e só percebo essa história da cidade onde nasci porque nasci em Lisboa, uma cidade na qual se pode, e deve, viver, passar, nascer e morrer. Mas no que toca a Brighton tinha razão: é uma cidade onde se pode viver, apesar deste verão.

T. dizia-me ainda que Brighton é assim porque é a capital da cultura gay do Reino Unido. Mais provavelmente é a capital da gayice do Reino Unido porque é assim: bonita, animada, criativa, variada. Mignonne, e meio morta se fosse francesa; mignonne e viva porque é inglesa.

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Continuo a trabalhar no D.H., metade para agradecer ao armador a hospitalidade (paga, mas barata), e metade para estar ocupado. Hoje foi a vez da fuga de água no circuito de água doce; ontem, da corrente de terra. Temos frigorífico e podemos deixar a bomba de água ligada. Quanto mais trabalho neste barco mais gosto dele. Há barcos como mulheres: foram feitos para nós. Ambos tardam em ser encontrados; mas isso deve ser de propósito: precisamos de termos de comparação em número e qualidade suficientes.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Lisboa, Portugal, 19-07-2012

Como estar em Lisboa de passagem sem transformar a estadia (a passagem) numa peregrinatio ad loca memoriam? Ou, pior ainda, numa peregrinatio ad loca infecta

Como estar de passagem nas nossas raízes?

Evitando voltar a tudo o que se conhece, tentando olhar para tudo o que não se conhece com olhos de quem não conhece (como se fosse possível).

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Há sítios onde se pode viver e sítios onde se deve viver. A distinção é difícil de definir e fácil de ver. Lisboa está nos lugares de topo em ambas as listas.

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Há cordões umbilicais que nos ligam a certos lugares. O Tejo tão claro, tão fundido no resto da paisagem; o ar tragicamente sério dos portugueses (ou seriamente trágico, à escolha); a luz, meu Deus, esta luz que me faz pensar que estou a mergulhar quando desço a rua do Alecrim de bicicleta. As ruas que não conheço, tão familiares como as que percorri milhares de vezes.

Somos de um lugar, por muito que ele fuja de nós, ou nós dele.

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Está um calor de torrar; no restaurante (especialidade: sandes) entram magotes de engravatados, encamisados, encasacados. Formais, tristes, sérios. Penso que já tentei pertencer a essa tribo e tenho vergonha (de mim; eles são todos muito bem).

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ASAE: peço um bagaço caseiro como se estivesse a pedir uma dose de LSD.

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A rapariga olha para todos os outros clientes como eu: um olhar simultaneamente perscrutador e tímido. Verá a mesma coisa que eu vejo?

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Penso nesta cidade que amo como se não tivesse nascido nela. Estar de passagem é uma sorte, uma bênção: estamos bem onde quer que estejamos, de onde quer que sejamos. 

domingo, 8 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 08-07-2012 (e vão 100)

Com ou sem Bosão de Higgs, é fácil provar a existência de Deus. Em cinco dias de trabalho, houve apenas um em que chovia à minha hora de saída, e nem sequer foi hoje. 

Fazer a Madeira Drive à beira-mar, a um domingo, é um passeio apaixonante. Ao longo de pouco mais de dois quilómetros é possível passar pela Era Vitoriana, contemplando as centenas de pessoas que ainda se passeiam no Brighton Pier (um pontão de 533 metros que, no séc. XIX, se tornou na principal atracção da cidade), entrar na Era Industrial e ver o Volk's Electric Railway, o mais antigo caminho-de-ferro eléctrico do mundo em funcionamento (data de 1883), lembrar Londres com a amálgama de hipsters com quem nos cruzamos e uma roda gigante ao jeito da London Eye (não será por isto, mas também não é por acaso que os ingleses chamam a Brighton "Little London"), sentir saudades do Paredão e saber que apesar da gente a pedal ou com cara de praia (mesmo se vestida até ao pescoço) não é possível dar um salto à Azarujinha e ver se a piscina encheu, se lá está a senhora que usa Coca-Cola em vez de bronzeador, ou se recuperaram o café onde se comiam uns caracóis tão bons. 

Do Pier até casa, o DARK HORSE, demoro 25 minutos. No outro dia fui pela praia e demorei duas horas. Em vez de areia, a praia tem pedras, a maioria do tamanho de um punho, ou um pouco maior. Os pés enterram-se nas pedras e é como se estivéssemos a andar no Inferno de Dante desenhado por Doré: além de estar frio (cada vez mais me convenço de que se o Inferno é quente é para lá que quero ir), as almas-penadas agarram-se-nos às pernas a pedir boleia. Nos últimos 40 minutos dessa viagem decidi provar a mim mesma que era leve, e tentei caminhar enterrando os pés o mínimo possível -- tudo o que alcancei foi uma leveza pesada, mas talvez seja apenas uma questão de sapatos.

Os ciclistas são velozes e fazem-me alguma inveja. As bicicletas aqui são caras, principalmente as maravilhosas que vi no Stables Market em Camden Town, cujos preços me obrigariam a trabalhar num mega-iate, sítio onde não preciso de uma bicicleta para nada; vou-me apercebendo, porém, de que em libras esterlinas não existe o conceito de barato -- é affordable ou não é, e geralmente não é.

Por falar nisso, ainda não sei quanto vou ganhar. C., a minha chefe, tem estado fora. Tem uma atitude que me agrada: disse-me imediatamente como queria as coisas feitas, corrigiu-me quando as fiz mal, aconselhou-me quando quase as fiz mal, elogiou-me quando foi pertinente. «OK, não fazes flores no latte mas o leite está muito bom». Hoje, ao contrário de ontem, quase não tivemos clientes. À hora de almoço aproveitei uma aberta e fui sentar-me lá fora, olhando para o sítio onde trabalho e tentando perceber o que lhe falta. É uma coffee shop com um café excepcional, na qual ter clientes é uma excepção. Existem três Starbucks e mais uns símiles na zona, mas não numa rua tão gira e tão cheia de gente. Pergunto-me se será da ausência de sofás -- por motivos freudianos, certamente, o sofá tornou-se num chamariz comercial; ninguém entra e muito menos fica num sítio onde não haja um sofá.

Tive tempo para varrer o andar de cima, que não devia ter sido varrido há pelo menos 20 anos, e para limpar a casa-de-banho, uma das mais gratificantes tarefas que levei a cabo nos últimos tempos. Num mega-iate com hospedeira permanente limpa-se, geralmente, o que já está limpo e os resultados são decepcionantes -- a diferença entre estar limpo e "a brilhar" pode, por vezes, ser muito ténue --, ao passo que num café britânico com pessoal a menos é possível ver a diferença em tudo o que se limpou, mesmo que chamemos limpar a passar um pano húmido por cima de uma prateleira cuja cor já se confunde com a do pó. A verdade é que o sítio é muito agradável e o aspecto tão rústico de tudo (um chão de tábua que nunca foi esfregado pode parecer apenas um chão de tábua vindo de um celeiro com cem anos na Carolina do Norte, como eram as paredes do Rooster's, em Charlotte) disfarça a sujidade.  Felizmente, a Food Standard's Agency não é a ASAE e é fácil para o café mais simples (sem sofás) ter as portas abertas sem se parecer com um laboratório de análises clínicas. As sanduíches do sítio onde trabalho são feitas e embaladas à mão, medimos a temperatura do que temos no frigorífico de três em três dias e a placa onde fritamos o bacon explode se a borrifarmos com detergente. A louça, no entanto, é lavada duas vezes: uma à mão e outra à máquina -- dependendo do funcionário de serviço ao lavatório uma sai melhor do que a outra, ou vice-versa.

São oito horas e acabei de jantar. O M. teve a delicadeza de preparar o jantar para mim. Sente-se hoje particularmente sozinho, porque G., o tripulante que restava além de mim, foi viver para um hostel. Também sentirei a sua falta -- é gente boa. A marina não é o sítio mais confortável do mundo, mas não é, de longe, o menos confortável, sobretudo se excluirmos a probabilidade de apanhar uma pneumonia sempre que fazemos o trajecto de 50 metros da doca à zona coberta. Os pores-do-sol aqui surpreendem-me de dia para dia. M. comentava, há tempos, que nem nas Caraíbas os viu assim. A explicação é simples,* e não precisa de Bosão de Higgs: Deus existe e está em todo o lado.

*A Oxford Comma também.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

La Coruña, Galícia, Espanha, 06-07-2012

Esta cidade é podre de boa. É uma versão sexy do Porto.

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Um [Bavaria] 50 entra, seguido por um arrastão. Ambos se cruzam com uma pequena lancha que sai para a pesca, proavelmente, ou para um copo na baía. No cais do granel um graneleiro de 40,000 toneladas descarrega, ou carrega, não presto atenção suficiente para discernir; ao fundo uma coisa indescritível, parece um cruzamento entre uma draga e um navio do short haul do norte da Europa; do outro lado um petroleiro de talvez 20 ou 30 mil toneladas. Tudo isto rodeado pela cidade, prédios que num arremedo de atopia me fazem pensar numa S. Francisco dos pequeninos.

Talvez as autoridades da APL pudessem dar aqui um salto para ver como se consegue integrar um porto numa cidade sem terminais de contentores. Ou, melhor ainda, a população de Lisboa, para contestar decisões absurdas com conhecimento de alternativas possíveis.

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Gostar do que se faz - ou fazer o que se gosta, a ordem dos factores é arbitrária -  é remédio santo. Cura tudo, desde unhas encravadas às mais perniciosas e profundas dores de cabeça. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

La Coruña, Galícia, Espanha, 05-07-2012

Está um verão como já não se fazem invernos. A malta do "aquecimento global" (entre aspas porque acabo de ligar o aquecimento do bote) deve estar nas nuvens.

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E tem mulheres. Bonitas, sorridentes, alegres como se a cidade não passasse, apesar da chuva e do frio, do gigantesco cenário de uma publicidade à vida, ou à alegria.

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Fui jantar e na volta perdi-me. Sabia que me ia perder pela maneira como andava na rua: o mar estava à minha direita e não precisava de olhar para mais nada. Mas em La Coruña há sempre mar à nossa direita (excepto numa parte que de qualquer maneira é longe, curta e desinteressante), e fui parar ao mau mar, ao lado errado do mar. Mas o outro não fica longe, graças a Deus.

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Tapas a 1,60 euros. Com três fica-se jantado, com quatro mantém-se o peso e com cinco contribui-se para a casa da nutricionista, tão bonita, coitada.

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É uma das muitas ruas em La Coruña que se parecem com a do João do Grão, na Baixa de Lisboa. Mas aqui há infinitamente menos turistas do que em Lisboa, os menus são em espanhol, as caras e as conversas são galegas. Ontem "fui-me de tapas"; hoje vou-me de polvo e de povo. O Mesón O Galego, na Calle Franja 56 só tem o habitual defeito - que de tão habitual está quase a perder o apesar de tudo nobre estatuto de defeito - da televisão. De resto é perfeito: uma média de idades igual ou pouco superior à minha, clientes que nasceram na Galícia há pelo menos três gerações, decoração inexistente. Quem aqui vem vem para comer, e sabe o que quer comer.

Descubro uma coisa chamada Ribeiro Turvio, vinho branco servido numas taças de cerâmica, acre, jovem, (surpreendentemente) turvo, que nos fica pela boca até à eternidade, apesar da juventude; o polvo estava excelente, os boquerones também. O jantar acaba com um caldo à galega, outro meio jarro de Ribeiro Turvio e a ideia de que não ter um domicílio fixo faz de um gajo o melhor dos cidadãos: estamos em casa onde quer que estejamos.


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Ter prazer com as coisas simples aprende-se. É um percurso, no fundo. Começa por ter prazer com as coisas complicadas.


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A ASAE do imobiliário em Portugal chama-se (ou chamava-se, quem acompanha que me elucide) IGESPAR. Foi durante alguns anos dirigida por um inteligentíssimo imbecil cuja grande aspiração na vida era ser ministro [quase conseguiu, mas isso é outra história]; o qual prolongou as políticas do imbecil que o antecedeu e - de certeza - deixou as bases para a daquele que lhe sucedeu no cargo. O IGESPAR acha, ou achava, que os monumentos históricos têm "de respirar", e durante anos impediu coisas como, por exemplo, o soberbo passeio que vai de Cascais à Marina passando pelas bases do forte.

Eu não acho. Os edifícios antigos - como o dito passeio e grande parte da cidade de La Coruña ampla e desenvergonhadamente demonstram  - devem ser tratados como os modernos, o vinho tinto ou as mamas das senhoras (ou as pilas dos senhores, para quem gosta, já agora): à discrição dos utentes.   

Se antigamente houvesse um IGESPAR hoje as cidades não teriam interesse nenhum.

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O café de Macondo não tem televisão; em contrapartida tem excelente música, uma invejável colecção de arte nas paredes, é lindo e eu acho injusto só o ter conhecido hoje (c/ san Andrés 106).

Como de resto o café Central, última escala antes de chegar a bordo, trajecto perigoso e tão cheio de eternidades como o golfo da Biscaia, mais moderno mas com a melhor crema (Hijos de Ribeira, este nome merece ser fixado) que até hoje provei.

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As cidades interessantes são como as senhoras bonitas, não é? Descobrem-se milímetro a milímetro, eternidade a eternidade. Demora vidas, conhecê-las.

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Está uma exposição na cidade chamada (não reproduzo o grafismo) Maria Helena Vieira da Silva Arpad Szenes Traxectorias Paralelas. As cidades estrangeiras fazem de nós melhores pessoas, é certo. Vivi anos a minutos do Museu Vieira da Silva em Lisboa e nunca lá fui (admitidamente, uma das vezes que tentei  estava fechado; as outras devo ter ficado pelo caminho). É uma exposição relativamente pequena (cerca de cinquenta obras) mas que me fez descobrir Arpad Szenes e algumas obras de juventude de Vieira da Silva. E ter a certeza de que quando chegar a Lisboa vou ao Museu Vieira da Silva. Afinal sou quase tão estrangeiro em Lisboa como noutro lado qualquer. Ou serei, um dia, inch'Allah.

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Largo sábado, com a maré da manhã. Espero que em Portugal esteja a chover menos, e faça menos frio. E que um dia alguém se lembre de organizar uma conferência internacional chamada Lisboa + 25 (graus centígrados), para que os aquecimentistas vislumbrem os disparates que há alguns anos apregoam sem parar.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

La Coruña, Galícia, Espanha, 04-07-2012

É preciso ser honesto: até ao segundo dia de viagem pensei que ela não ia terminar nunca, que ia bolinar no Golfo da Biscaia (apoiado pelo motor, a maioria das vezes), com frio e chuva e cinzento como a maior parte da minha vida pelo resto da minha vida; mas depois tivemos sol, o vento rondou um bocadinho e tudo ficou um muito melhor - a tal ponto que vi, no segundo dia pela primeira vez, o fim da viagem.

O qual mudara, entretanto. Deixou de ser Vigo e passou a ser La Coruña. É uma sorte, gosto mais desta do que daquela, que é uma cidade cinzenta e fechada. Ao princípio La Coruña parece uma ilha, tem mar por todos os lados; depois lembramo-nos da carta: La Coruña é uma península. Continuamos a passear e passa a ser uma grande península com muitas pequenas penínsulas agarradas.

É um fractal, geográfica, arquitectural, socialmente. Há prédios modernos nas zonas antigas, prédios antigos nas zonas modernas, as coisas imbrincam-se umas nas outras e tudo se reproduz a escalas cada vez menores. Há barcos de pesca na marina (porto de recreio, mais apropriadamente), mesmo no centro da cidade, como se as traineiras estivesse atracadas em Santos. Do outro lado fica o cais do granel e ao lado o dos cruzeiros. Há mar por todos os lados e cafés, bares,  restaurantes com nomes irresistíveis, como Bebedeiro de rua ou Café do Tio Ovídio (um gajo imagina Ovídio atrás do balcão a dizer "Não se deseja aquilo que não se conhece" - não é verdade: ama-se o que não se conhece, só se ama o que não se conhece, só se ama enquanto não se conhece; ou "os anos aproximam-se silenciosamente" - é verdade, é sorrateiro o andar dos anos).

Há lojas antigas com empregados jovens e lojas novas com empregados velhos, ruas estreitas com carros e largas sem eles, há alegria e tapas e raciones, prédios lindos, boa disposição.

E chuva, claro. Verdade seja dita: hoje foi pouca. A tarde esteve linda e cheia de sol, que se reflectia nos sorrisos das raparigas e as fazia andar ligeiras, sorrir e seduzir.

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Saio na sexta-feira. É bom largar de um porto de que se gosta muito; melhor do que de um que se detesta. Não sei porquê, mas é assim, Sempre foi. Pelo menos para mim.

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São duas da manhã. As traineiras largam para o mar. O SOGNO agita-se. Vou deitar-me e sognare. 

domingo, 1 de julho de 2012

Brighton, Reino Unido, 01-07-2012


Ouço, do beliche, os brandais da marina inteira abanando, fustigados pelo vento. Penso como seria bom ouvir, como ouvi no mar, aquele véu de vento e pano sem interferências, a não ser a da rebentação -- a espuma tem som, já lhes disse? Olho o mar, ainda inquieto, e vejo-te. Vejo-me também, longe daqui.

Este ano nasceu bêbedo e entaramela as estações todas. Bela desculpa.

Está um frio dos diabos. Chove e faz sol, mas chove sempre mais do que faz sol. Hoje foi uma excepção, mas o frio era tanto que o Sol quase não contava. O meu cabelo é incompatível com o vento nestas quantidades, e o meu guarda-roupa (enfim, guarda-roupa é um eufemismo, devia dizer a mala de que tenho vivido nos últimos seis meses) com a falta de calor. Tive de comprar um casaco e umas calças, e a única camisola de manga comprida que consegui encontrar. Meteorologicamente, os ingleses vivem em negação. Calções, mangas curtas, saias, vestidos e sandálias é tudo o que se encontra nas lojas. Londres estava linda, banhada de sol, chuveirada de sol, imundada (piada higiénica intended) de sol, e assim sucessivamente. Mas nem por isso a porra do frio se foi, uma das razões para me querer ir embora o mais depressa possível, mas não é, obviamente, uma razão suficientemente forte. (As outras não são partilháveis.)

O trabalho é uma seca. Foi giro, quero dizer, aprender a fazer lattes, machiattos, capuccinos, americanos, mochas, flat whites e assim, mas não é para a profissão de barista que estou orientada. Nem para as sanduíches e saladas que vou fazer amanhã, nem para o salário que vou ganhar, menos de metade do que ganhava no J. Se a minha condição mo permitisse, ficaria aqui a tratar dos assuntos que cá me deixam sem trabalhar, a gastar a velocidades só recriáveis no grande colisionador de hadrões tudo o que ganhei com enorme sacrifício nos últimos meses. Mas não: sou pobre e viver sem "o dinheirinho certo ao fim do mês" causa-me aflições indescritíveis e indescritas, por isso, em todos os manuais de diagnóstico disponíveis. Como dizia a minha bisavó Joana sobre si mesma, «nasci para ser rica». Sim, porque também não gosto de trabalhar em geral, e não apenas em particular. Como fazer, então, para ser feliz?

Muita gente diria: encontra algo que gostes de fazer. O G., que conheci em Antígua e que agora está em Palma, canta e toca guitarra (bastante bem, por sinal) porque detesta trabalhar. E, quando questionado sobre aquilo que faz, confessa que também não gosta particularmente de fazer música, mas que a faz porque lhe parece a menos dolorosa das escolhas. Vejo-me a fazer o mesmo, mas não sem antes esgotar todas as hipóteses luteranas de ganhar a vida. Já estou a ver (e a sofrer) o trabalho que me vai dar não ter trabalho. Ser procrastinador é uma condição danada.

Porque não escrevo eu de coisas agradáveis?

Ouço, do beliche, os brandais da marina inteira abanando, fustigados pelo vento. Penso como foi bom ouvir, como ouvi no mar, aquele véu de vento e pano sem interferências, a não ser a da rebentação -- a espuma tem som, já lhes disse? Olho o mar, ainda inquieto, e vejo-te. Vejo-me também, longe daqui.

Este ano nasceu bêbedo e entaramela as estações todas. Tens razão -- felizmente, estamos em Julho, o que significa que já passou mais de metade.

Está um frio dos diabos. Chove e faz sol, mas chove mais do que faz sol, o que sempre contribui para que a temperatura não desça ainda mais. Hoje foi uma excepção, esteve um lindo dia de chuva. O meu cabelo é incompatível com o vento nestas quantidades, mas o vento não é quantificável; e o meu guarda-roupa (enfim, a mala de que tenho vivido nos últimos seis meses) com a falta de calor, o que me dá um óptimo motivo para ir às compras. Um casaco e umas calças e a única camisola de manga comprida que consegui encontrar, gira como tudo (de marinheira, vejam lá). Meteorologicamente, os ingleses vivem em negação, o que faz deles um povo extremamente positivo. Calções, mangas curtas, saias, vestidos e sandálias é tudo o que se encontra nas lojas. Londres estava linda, banhada de sol, chuveirada de sol, imundada (piada higiénica intended) de sol, e assim sucessivamente. Mas nem por isso o frio se foi, e o frio não é, obviamente, uma razão suficientemente forte para me querer ir embora. (As verdadeiras razões não são partilháveis.)

O trabalho foi giro. Aprender a fazer lattes, machiattos, capuccinos, americanos, mochas, flat whites foi o realizar de um sonho adolescente: ser barista por um dia. Vou poder cozinhar no meu novo trabalho, mesmo que seja só por umas semanas, ganhar o suficiente para viver e sair antes de o dia acabar num sítio adorável no centro de Brighton, os Kensington Gardens. A felicidade depende pouco das circunstâncias -- Ortega y Gasset discordaria, mas não consta que fosse feliz. O homem é ele, a sua circunstância que se lixe.

A seguir gostava de ir para Palma de Maiorca cantar com o G., que conheci em Antígua. G. não gosta de trabalhar e por isso canta e toca guitarra (bastante bem, por sinal). Eu também não gosto de trabalhar e G. inspira-me por isso. Vejo-me a fazer o mesmo, um dia: trabalhar sem trabalhar, diminuir essa obrigação fazendo algo de que gosto. O único senão é que até para não trabalhar é preciso trabalhar, mas como diria Lutero «o trabalho nunca matou ninguém» (correcções à citação são muito bem-vindas).

No, we cannot cling to the old dreams anymore. Venham os novos (e os velhos, mas que nenhum me dê conselhos).




sábado, 30 de junho de 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Camaret-sur-Mer, Bretanha, França, 29-06-2012

A depressão que nos impediu de continuar o caminho passou hoje de manhã. A temperatura subiu, o vento caiu, a chuva parou. O anticiclone dos Açores começa a dar um ar da sua graça. Amanhã largamos, se tudo se confirmar.

A grande questão, evidentemente é "o que faz um marinheiro num porto enquanto espera pelo tempo?" A resposta é muito variável. Oscila entre "nada" e "baldear o convés, coser velas, limpar os fundos, reparações diversas, procurar hotéis, bilhetes de avião e de comboio para os armadores, procurar o ship chandler local, comprar provisões e assim por diante até ao infinito".

Além de travar conhecimento com os diferentes cafés, restaurantes e bares, claro.

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Isto é a teoria. Na prática o marinheiro chega a bordo e prepara-se para baldear o convés; descobre que o tanque de águas usadas, conhecido na intimidade por tanque da merda transbordou no paiol e que tudo o que lá estava (no paiol) adquiriu o consequente cheiro. Esvazia o paiol, limpa tudo o que lá estava e limpa o paiol. Descobre que a água fica na ré do dito paiol, pelo que é preciso transportar tudo o que lá estava para a proa da embarcação. Seca cuidadosamente o paiol, traz tudo o que lá estava para o poço e descobre que o tanque continua a transbordar. Como não sabe onde é a válvula para esgotar o dito tanque decide esperar pelo skipper e prosseguir com as outras tarefas.

Descobre que o produto que o armador tem a bordo para limpar o convés é uma, como dizer?, merda; faz o que pode (ou seja, esfrega o convés três vezes) e pelo sim pelo não vai ao pub Donegan Tavern beber um copo de vinho, uma foma de pasteurização como outra qualquer - menos eficaz, é certo, do que o whisky, mas mais adequada a outros parâmetros. 


E acaba no dito pub a pensar que uma embarcação de 32' é, afinal, amável, em certas circunstâncias.

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Depois pensa no passado recente e lembra-se do que pensou na Horta, pouco depois de lá chegar: a Horta é a Bequia deste lado do charco. E não há gin tónico como o do café Sport; e os preços, meu Deus, os preços.

Os bretões não são o povo mais simpático do planeta, longe disso. Mas são boa gente; e não há açorianos em mais lado nenhum do mundo, só nos Açores.

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Aproximadamente duas horas e dis copos de vinho depois de chegar ao pub o marinheiro lembra-se que ficou de fazer o jantar e, cheio de dúvidas existenciais -  faço um molho para os bifes ou não? Com que é que os vou acompanhar? - vai para bordo. Como ainda está frio, apesar da depressão ter passado, pensa que tavez não seja má ideia beber um copo de vinho enquanto Bruce Springsteen demosntra uma vez mais porque é o Boss, e o computador se apaga.

Decide que não sabe como vai fazer os bifes - eles que decidam como querem ser feitos - e que não bebe mais um copo de vinho. Um marinheiro de transportes não é um skipper de charter, Camaret não é a Horta e hoje é sexta-feira, não é segunda.

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Os bifes decidiram que não eram bifes, eram carne de slow cooking braised steaks, ou coisa que o valha, cito de memória, duas ou três horas de forno. Comemos salsichas de conserva com o aquecimento ligado e um arroz de pimentos que, ma foi, não ficou mau de todo.

E agora aproveitamos a vibrante vida nocturna de Camaret; T. no seu computador  e eu no meu.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Camaret-sur-Mer, Bretanha, França, 28-06-2012

Uma noite - há muitos anos - sonhei que um dia estaria na marina de Camaret a bordo de um barco holandês a comer porco feito por um inglês que se enganou no caminho e há meia dúzia de anos veio viver para França; sonhei que estaria frio, frio de enregelar, frio de morrer, frio de beber whiskey après whiskey no Bar-Snack Ar Men, no bar Notic ("Retour automatic") ou em qualquer bar que estivesse aberto numa noite de sexta-feira; sonhei que o vento estaria Sudoeste, o que é normal porque eu quero ir para Sudoeste; sonhei que gosto da Bretanha como se cá tivesse nascido, o que só acrescenta a Bretanha a uma infindável lista de lugares que amo como se em cada um deles tivesse nascido; sonhei ainda que um dia sonharia tudo isto, o que só demonstra que os sonhos são circulares, sonham-se a si próprios tal como nós nos sonhamos, e os sonhamos, um dia. 

Ou uma noite, vai saber.

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O ano tem muitas estações: a estação do rum, a do whisky, a do vinho. Tem mesmo uma estação que te é dedicada e dura doze meses; menos uns copos.


Este ano nasceu bêbedo e entaramela as estações todas.

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Camaret-sur-Mer fica na entrada do Goulet de Brest; tem duas ruas e três marinas; ou o inverso, mais provavelmente. Tem vento (menos ontem), nevoeiro (sempre), chuva (todos os dias) e sol (às vezes).

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Parece uma viagem ao passado.

(Não gosto do passado. Prefiro o futuro, mesmo já o tendo sonhado.)

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O barco chama-se SOGNO. É um Saffier 32, bonito, bem equipado. Mas 32' são 32'; é uma quantidade insuficiente de pés para acender uma paixão; ou um amor, sequer.

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Por vezes parece-me que a expressão "navegação de recreio" devia ser revista, reformulada. Seria simples: bastaria retirar-lhe "de recreio". Ou substituí-la toda por "vida", talvez. Ficaria assim: "a vida no Canal da Mancha pode ser bastante exigente"; "a vida no canal da Mancha não é para meninos"; "a vida no Canal da Mancha tem momentos de uma beleza que nenhum frio, nenhum nevoeiro, nenhuma corrente consegue apagar".

"A vida no Canal da Mancha começa e acaba invariavelmente num bar da Bretanha a ouvir Touré Kunda e a pensar na vida na Biscaia."

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A senhora das Boucheries Réunies tem uns brincos atrozes, um sorriso bonito, um Camembert muito para lá do aceitável e um saucisson sec divino. Dispenso os brincos.

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As mulheres bretãs mudaram. Estão mais bonitas. T. acha que é por causa do automóvel, que as leva ao ginásio. Parece-me um raciocínio demasiado inglês para ser falso.

Os homens estão iguais. Já te contei a minha história do Aber Wrac'h? É uma história de silêncios, cumplicidades e outras coisas bretãs.

Não é bem uma história, no fundo. É uma nostalgia.

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O bar vai fechar. No sábado a vida continua.

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O rapaz do sítio onde almocei insiste em falar inglês comigo. O inglês é aproximativo e o sotaque abominável; tem uma cara de imbecil como raramente tenho visto. É lamentável que a França esteja a mudar ao ponto de até os empregados de café falarem inglês. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Brighton, Reino Unido, 26-06-2012

Resumindo, a vida é uma sucessão de presenças e ausências. As tuas, por exemplo, as do medo. Dez dias de mar. Eu nele, ele em mim. A Horta, de onde largámos, é linda, e não lhe vi nada a não ser as nuvens cinzentas, as ruas limpas, as encostas verde-tudo, a gente boa e a comida boa e barata -- não comia lapas desde os quinze anos, e durante os próximos quinze não me esquecerei do gosto das do Peter. O gin tónico é outra coisa, aquele gin tónico é leve como eu sou quando me esqueço de que a vida é uma sucessão de presenças e ausências -- as tuas, por exemplo, as do medo; as da linda L., com quem estive meia hora no aeroporto de Toronto; as da gente boa que conheci em Charlotte, taxistas etíopes gordos, tarantinófilos de gema, apreciadores de futebol e de vinho do porto; a tripulação que deixei como se deixa uma família que nos dá liberdade.

Porque é que o mar é tão importante? Há milhares de adjectivos e eu escolho, para ele, a palavra importante. Porquê? 

Coisas que não se pode fazer no mar:

1. Ir para o mar e decidir que não se quer estar no mar. O mar é que decide quando saímos dele e quando sai de nós. Saí dele quando ele decidiu, e ele ainda não saiu de mim. Sei que não saiu porque quero voltar a ele.

2. Discutir*. Porque o mar grita mais do que nós, pode mais do que nós, tem mais razão do que nós.

3. Desconfiar. O mar não tolera irrelevâncias.

4. Ser infeliz. O mar não tolera irrelevâncias.

5. Assobiar. Dizer "coelho". Ter frio. Tomar banho muitas vezes -- infelizmente. 

Coisas que se pode fazer no mar:

1. Amor.

2. Ter medo. Não se pode, porém, ser tido pelo medo. Ter medo no (e do) mar é o mesmo que estar vivo: natural e às vezes doloroso, mas ainda assim bom. Ser tomado pelo medo sem o conquistar é deixar de ser. O medo no mar, como na vida, deve existir apesar de nós, isto é, não deve confundir-se connosco: ele é uma coisa, nós somos outra. É natural ter medo de ser uma coisa pequenina no meio de uma coisa tão grande, ter medo de ser engolido por uma vaga, de não ter experiência, inteligência ou força suficiente para impedir o barco de adernar mais do que a conta. No entanto, quando a água mágica, fosforescente nos lambe o convés, não há muito a fazer senão pensar que Deus fez as coisas bem feitas. O barco flutua sobre uma coisa linda e perigosa, mas não tão linda e perigosa que um homem comum não a consiga conquistar. 

3. Tolerar-se. Estar só a governar durante duas ou mais horas é mais difícil para quem não se governa. A princípio, apercebemo-nos de que se não nos governarmos somos governados (pelo mar e pelos nossos pensamentos); depois, com o tempo, aceitamos: primeiro as circunstâncias -- "este é o meu quarto e tenho de o fazer comigo" --, depois as escolhas -- "eu estou no mar porque quero, comecei esta viagem porque quis, não poder não estar aqui é a consequência da minha escolha" -- e, por fim, as vantagens -- "sei de mim muito mais do que sabia antes de embarcar. Sei que não me tolero e que quero aprender a tolerar-me", por exemplo. 

4. Comer bem. Matar saudades de enchidos e bacalhau, imitar com atum-amarelo uma sopa de cação magnífica que se comeu em Évora, fazer um cebiche meio decente, um bolo de chocolate assim-assim, uma feijoada à transmontana com couve chinesa.

5. Partilhar. Muito e sempre.

6. Rir e disparatar. Que bom que é quando se faz, que bom que é quando se sabe fazê-lo.

7. Desejar um duche quente. E estar tão sujo quando se chega que, em vez de um, se tomam três antes de vestir uma peça de roupa lavada.

8. Aprender. Tudo de novo, como uma cria de lobo que sai da toca pela primeira vez. (E ler os lobos de Jack London, da terra e do mar.)

Concluindo, podem fazer-se no mar muitas mais e melhores coisas do que aquelas que não se podem fazer. A liberdade é uma questão de perspectiva, como a ausência e a presença. As tuas, por exemplo, as do medo. Tu nunca te foste embora e o medo de não te voltar a ver já se foi. Mas, se não te importas, despacha-te, que governar sem ti torna os dias e as noites longos, intermináveis.

*-- em terra também não.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Brighton, Reino Unido, 22-06-2012

Converso com T., o skipper com quem vou até Vigo, sobre Gibraltar. Acha aquilo completamente desinteressante. É forçoso reconhecer que tem razão; Gib nem uma sombra é do que foi. Mas alguns locais são como alguns amores: não mudam. O que um dia foram serão sempre. E Gibraltar é um desses locais, pelo menos para mim. 

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Azáfama na marina. 60 nós de vento, medidos pelo nosso vizinho. Ao que parece até um mastro partido houve. Os brandais não deviam estar em muito bom estado; felizmente foi na marina, e não no mar. Dobram-se e triplicam-se cabos, passam-se alguns onde não os havia, afastam-se barcos, reforçam-se defensas, peia-se tudo o que está nos conveses e nos rufos.

No DARK HORSE rasgámos o abominável bimini top e as duas capas das velas. É chato para M., que está sem dinheiro e quer vender o barco. Mas não é grave.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Brighton, Reino Unido, 21-06-2012

Largámos a tempo: quatro dias é uma escala. Mais teria sido turismo.

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A água está muito fosforescente. Por vezes uma vaga rebenta não muito longe do navio e parece que temos um paquete aqui ao lado. E quando rebentam no poço (muito poucas, graças a Deus) parece que ficamos com guirlandas.

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Cinzento e frio: bem vindos ao verão do Atlântico norte. Não percebo como é que há pessoas que são contra o aquecimento global. Se eu morasse na Europa do norte e rezasse rezaria todos os dias para que a terra aquecesse, e depressa.

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550 milhas até Ouessant: 550 milhas até um passado distante.

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150612 - Ficaram o vento e o frio, voltou o sol. Estamos num fluxo de oeste provocado por uma baixa que está para norte da Biscaia, e espera-nos - se a previsão se revelar tão acertada como até aqui (o que me faria gritar milagre! e cantar laudas à Passage Weather) - um fluxo de oeste provocado pela extensão para norte do anticiclone dos Açores. Entre os dois, talvez haja um período de calma. Ou talvez não, e nesse caso dentro de três dias chegamos. [Não chegámos. O Anticiclone dos Açores não veio tão para norte como a Passage Weather previu. Fizemos os últimos dois dias a motor.]

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Isle of Wight, entrada leste do Solent - Pôr-do-sol: é como navegar dentro de um quadro do Turner. Porque será que nunca nos cansamos da beleza de um nascer ou pôr-do-sol, por muito foleiras que lhes achemos as fotografias e as descrições?

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210612 - Chegámos ontem, mas a viagem ainda não acabou. Só acaba quando o barco estiver limpo e em condições de ser "entregue" (entre aspas porque o armador está a bordo). Neste caso as limpezas são um bocadinho mais a fundo porque o barco vai ser vendido e já há duas visitas programadas.

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Se tudo correr bem embarco na segunda ou terça-feira para o Mediterrâneo num Saffier 32.

domingo, 10 de junho de 2012

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Diálogo

- O Peter é a minha segunda casa.
- Qual é a primeira?

Horta, Açores, Portugal, 07-06-2012

Largámos às quatro da tarde de Marigot Bay. Na manhã seguinte estávamos a reparar velas. Estão, como dizer, velhotas. Por causa disso passámos um dia inteiro de yankee 1 e trinquete, sem a grande, que esperava pela secagem da cola de contacto. Mesmo assim fizemos 170 milhas.

O "DARK HORSE" é uma embarcação magnífica, armada em escuna; 60', 23 toneladas, 33 anos, 7 tripulantes, 2200 milhas pela proa, E, ENE e ESE 3 a 5, mar de pequena vaga a moderado, sol. Deve haver maneiras melhores de começar uma travessia, mas eu não sei quais são. Talvez começar com uma alheta? Não. Gosto da bolina, é a maneira mais rápida de amarinar a tripulação e de julgar o bote.

E o bote é magnífico. Parece que foi desenhado para mim.

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Passámos o Trópico de Câncer à meia-noite menos um minuto. Estamos oficialmente fora dos trópicos. Os alísios continuam, graças a Deus, se bem mais variáveis. A velocidade baixou. A tripulação está quase toda amarinada - falta a N. e L., estamos a tratar delas.

O tempo continua óptimo.

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Um gajo está deitado no camarote. Sente os movimentos do barco, o barulho da água no casco, mas tudo parece imóvel.

Pouco depois está no poço, caneca de chá na mão, à espera da sua vez de governar. As noites já não estão quentes, mas ainda não estão frias. Amanhã tenho de pôr uns sapatos, pensa. O barulho da água é diferente, e é o mesmo: alegre, leve. 15 nós de vento real; com os 8 da velocidade os 20 de vento aparente já fazem os brandais zumbir. Tudo o é leve. A noite, o leme, a ideia de que os próximos 12 dias (se tudo correr bem) ou 15 (mais provavelmente) serão passados aqui. Nem todos serão assim, claro: haverá mau tempo, chuva.

É impossível definir de onde vem esta sensação de estar nos braços de um deus feliz, ou nos de uma deusa bela, sensual e libidinosa.

Ao quarto dia o vento caiu, finalmente. Já vamos no segundo peixe - um mahi mahi ontem, um bonito hoje.

A comida não é o ponto forte desta viagem, mas o Mike compensa esta ligeira deficiência sendo um óptimo pescador. (Se não fosse o peixe o regime seria totalmente vegetariano).

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O frio passou. Hoje de manhã tivemos o primeiro aviso do que está para vir: céu nebulado e frio.

Motor, motor, motor. Começou hoje às duas e meia da tarde; e vai durar pelo menos mais dois dias... Ficar parado no meio de nada é chato; avançar com este barulho é uma merda. Deve ser uma das mais perfeitas definições de dilema que conheço.

O vento voltou, e com ele o frio: traz com ele um bocadinho do norte de onde vem.

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"O que é que você quer que eu faça de si' N.?" Não perguntei. Na verdade a rapariga interessa-me pouco - é gira e bem feita, mas no mar essas qualidades (no sentido de características) são irrelevantes.

N. é brasileira. Além de bonita e boa deve ser rica, ou pelo menos vir de uma família que o é. Não sabe decerto o que o universo, nem o que é um centro, mas se soubesse considerar-se-ia o centro do universo. Hoje houve uma pega abordo: um inglês mais ou menos operário de Liverpool e uma brasileira mais ou menos idiota de São Paulo não se compreendem muito bem, por muitos esforços que façam. E nenhum deles faz.

C. pediu desculpa, quando saiu de camarote e se juntou a nós. N. estava ao leme e não respondeu. "N.?", chamei. "Ainda não posso". A verdade é que os dois têm culpa; e ainda mais verdade que me estou completamente nas tintas.

Não sou super-homem, nem bom pastor. E há muito abandonei a ilusão de que era ambos, ou pelo menos um pouco de cada. O objectivo não é sermos amigos, é sermos um tripulação; e se dessa tripulação saírem algumas amizades tanto melhor; se não, paciência. "O que é que você quer que eu faça de si, N.?"

Se quiser ser tripulante eu posso ajudar, e gostaria muito; se preferir ser passageira, vou ignorá-la. A escolha é sua, e eu limitar-me-ei a esperar que a faça.

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Continumamos à vela, com um vento fracote mas suficiente para nos fazer andar a 5 nós. É pouco, mas melhor do que nada e infinitamente mehor do que os 5,5 que fazemos a motor.

Estamos quase a chegar à "esquina"; amanhã ou depois de amanhã "viramos à direita".

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Os dias passam a correr. Mal acabo o pequeno almoço é noite e já jantamos e estou a vestir-me para o quarto; é intrigante, porque se me perguntarem "o que fizeste durante o dia" não sei que dizer. Naveguei, li, dormi, comi, lavei a loiça, naveguei, mareei os panos, tomei um duche, dormi, naveguei, comi - não fiz nada, em suma. E apesar disso amanhã faz uma semana que saímos de St. Martin, e estaremos provavelmente a pouco mais de outra semana da Horta. Largámos ontem, chegamos logo, daqui a bocadinho.

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A lua vai crescendo. Mais dois dias e estará em quarto crescente; vamos chegar à Horta com ela cheia. Gostava de a ver logo atrás do Pico, um dia.

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Estou ansioso por revisitar a Horta. Tanto vivi, lá...

Visito o meu passado como se não fosse meu, como se fosse a vida de outro, ou outra vida.

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"I am all things, save soul of fellow men / And the very God" Tennyson.

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Vais ao leme e divagas. Divago, Jivago. A divagar se vai longe. Porque é que longe é melhor do que perto? E se tentasses seduzir-me? Seduz-me tu. É a tua vez. Senhoras primeiro. Daqui a pouco haverá vento. Quem é A? Como sabes que ela verá vento? Quem é ela? Aquilo é a Via Láctea; ali está a Polar. Vai alta, agora, estamos cada vez mais perto dela. Estás com a cabeça nas estrelas. E os olhos no vento. Gosto dos sítios de onde não se vê a Polar e de ouvir os brandais a vibrar. E eu de quando tu me fazes vibrar. És o meu vento. Divagas. O vento chegou. Chegámos. Terminus. Tout le monde descend. Para onde vamos? Para longe; perto é um não-lugar. Mas eu gosto de te ter perto de mim. Eu sou um não-lugar. Amo-te. Tira os olhos da Polar, não olhas se não para ela. Mentira. Também olho para Sirius, e para os Gémeos. Castor e Pollux. Não vejo Orion. Só te vejo a ti. Não vês nada. Divaga. Aí está o vento. E o porridge. 7 nós e meio e os brandais a vibrar. Concentra-te. Deixa as estrelas. Seduz-me. Daqui a pouco estamos nos 20 nós de vento. Seduz-me.

20 nós, 25, de vento; 8, 9, 10 de VMG.

Sonhos síncronos.Continuas a delirar. O barómetro baixou, finalmente. Depois de o vento chegar.

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290512 - Os trópicos deixaram-nos, definitivamente. Calças, camisa de manga comprida, botas, veste de quart e frio, muito frio, apesar disto tudo.

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300512 - As velas estão podres, completamente podres. Rasgam-se só de olharmos para elas. Esta noite foram 4 rasgões, no trinquete e na grande. A unidade de base é 25 cm. Reparamo-las com montes de cola de contacto e pano - o M. tem uma enorme reserva de tecido velho, podíamos fazer uma vela nova.

Mas os rasgões no trinquete vão ficar assim. Precisariam de praticamente toda a cola que temos.

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Nós é que somos hóspedes da vida, seus convidados. E ela é uma anfitriã generosa: pôs à nossa disposição o mar, o vento, as senhoras (e os senhores, para elas), as estrelas, o vinho e o rum e tantos milhares de coisas boas. Devemos portar-nos bem, em casa da vida; mas usufruir de tudo o que ela nos oferece. "Esta é a minha casa. Abusem, nada me faria mais feliz do que vê-los abusar de tudo o que aí está". Mas depois acrescenta, para os mais distraídos "mas não se esqueçam de que a casa é minha. Não é vossa".

"O meu país é uma embarcação de vela". Em inglês teria ficado "my country is a sailing boat". C. pergunta-me se Portugal me falta; "não". E se penso lá voltar a viver? "Não". "Onde vais assentar, se um dia assentares?" "Não sei, ainda é muito cedo para pensar nisso".

"O meu país é um barco à vela" ocorre-me depois. Ainda bem que não veio a tempo para a conversa.

A minha pátria é um veleiro no oceano.

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Pode mentir-se a quem se quiser - ao patrão, ao cônjuge, aos amigos ou ao fisco - mas não se pode mentir ao mar.

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"A água está suja? Então beba sumo de futas, N.". "Suco de frutas? Mas nem gelado está".

Um barco não é uma residência secundária.

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Frio cortante, ácido, que corrói a roupa, a pele, a carne e nos deixa omo se tivéssemos os ossos expostos.

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Uma está "sem energia psíquica", a outra "só quer morrer", uma terceira tem medo da própria sombra; um deu um jeito nas costas e mal se tem em pé (mas governa magnificamente) e o outro, marido da que tem medo, é incapaz de manter um rumo mais de cinco segundos (e pela conversa dele há outras coisas que não deve conseguir aguentar mais de cinco segundos, mas isso é problema dele, e dela). É isto uma tripulação?

Força 4 a 6 para a chegada. Mas não deve ser suficiente para podermos beber um G&T no Peter.

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Duas melancias sobre as quais assenta uma outra melancia, com duas enormes melancias por cima, (quando não tem soutien achatam-se e espraiam-se pela barriga); tudo isto encimado por uma outra melancia, mais ou menos aredondada. O corpo de L. é uma composição de melancias.

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São sete e meia da manhã. O céu está coberto, cinzento escuro, mas o sol nascente ilumina Horta. O branco das casas contrasta com o fundo cinzento do céu. O porto está cheio de iates de todo o tipo e feitio, que começam a movimentar-se: agora entra um sublime sloop, um Class J que não identifico mas devia [era o ENDEAVOUR]; um catamaran sai; uma espécie de ruína ao lado da qual o DARK HORSE faz figura de barco novo sai e iça pano à entrada do porto. Do lado dos grandes também há movimento: o MADEIRENSE 3 vem de marcha a ré para atracar - não pode fazer de outra foma, o porto está cheio de iates fundeados e não há espaço para manobrar.

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A chegada foi no Peter, claro. José Henrique não se lembra de mim, naturalmente: há 30 anos que não vinha cá, e mesmo quando estava nos Açores só ocasionalmente vinha à Horta.

Ficámos fundeados ao lado do SIDNEY ROCK OYSTER, com quem falámos no mar; e um bocadinho perto de mais do SANTORINI EXPRESS. Foi uma entrada bonita: 23 toneladas à vela, sem vento, à bolina, de noite.

Vai custar-me cara, tanta felicidade, de certeza. Ou então está paga, paguei-a adiantado.