sábado, 30 de junho de 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Camaret-sur-Mer, Bretanha, França, 29-06-2012

A depressão que nos impediu de continuar o caminho passou hoje de manhã. A temperatura subiu, o vento caiu, a chuva parou. O anticiclone dos Açores começa a dar um ar da sua graça. Amanhã largamos, se tudo se confirmar.

A grande questão, evidentemente é "o que faz um marinheiro num porto enquanto espera pelo tempo?" A resposta é muito variável. Oscila entre "nada" e "baldear o convés, coser velas, limpar os fundos, reparações diversas, procurar hotéis, bilhetes de avião e de comboio para os armadores, procurar o ship chandler local, comprar provisões e assim por diante até ao infinito".

Além de travar conhecimento com os diferentes cafés, restaurantes e bares, claro.

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Isto é a teoria. Na prática o marinheiro chega a bordo e prepara-se para baldear o convés; descobre que o tanque de águas usadas, conhecido na intimidade por tanque da merda transbordou no paiol e que tudo o que lá estava (no paiol) adquiriu o consequente cheiro. Esvazia o paiol, limpa tudo o que lá estava e limpa o paiol. Descobre que a água fica na ré do dito paiol, pelo que é preciso transportar tudo o que lá estava para a proa da embarcação. Seca cuidadosamente o paiol, traz tudo o que lá estava para o poço e descobre que o tanque continua a transbordar. Como não sabe onde é a válvula para esgotar o dito tanque decide esperar pelo skipper e prosseguir com as outras tarefas.

Descobre que o produto que o armador tem a bordo para limpar o convés é uma, como dizer?, merda; faz o que pode (ou seja, esfrega o convés três vezes) e pelo sim pelo não vai ao pub Donegan Tavern beber um copo de vinho, uma foma de pasteurização como outra qualquer - menos eficaz, é certo, do que o whisky, mas mais adequada a outros parâmetros. 


E acaba no dito pub a pensar que uma embarcação de 32' é, afinal, amável, em certas circunstâncias.

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Depois pensa no passado recente e lembra-se do que pensou na Horta, pouco depois de lá chegar: a Horta é a Bequia deste lado do charco. E não há gin tónico como o do café Sport; e os preços, meu Deus, os preços.

Os bretões não são o povo mais simpático do planeta, longe disso. Mas são boa gente; e não há açorianos em mais lado nenhum do mundo, só nos Açores.

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Aproximadamente duas horas e dis copos de vinho depois de chegar ao pub o marinheiro lembra-se que ficou de fazer o jantar e, cheio de dúvidas existenciais -  faço um molho para os bifes ou não? Com que é que os vou acompanhar? - vai para bordo. Como ainda está frio, apesar da depressão ter passado, pensa que tavez não seja má ideia beber um copo de vinho enquanto Bruce Springsteen demosntra uma vez mais porque é o Boss, e o computador se apaga.

Decide que não sabe como vai fazer os bifes - eles que decidam como querem ser feitos - e que não bebe mais um copo de vinho. Um marinheiro de transportes não é um skipper de charter, Camaret não é a Horta e hoje é sexta-feira, não é segunda.

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Os bifes decidiram que não eram bifes, eram carne de slow cooking braised steaks, ou coisa que o valha, cito de memória, duas ou três horas de forno. Comemos salsichas de conserva com o aquecimento ligado e um arroz de pimentos que, ma foi, não ficou mau de todo.

E agora aproveitamos a vibrante vida nocturna de Camaret; T. no seu computador  e eu no meu.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Camaret-sur-Mer, Bretanha, França, 28-06-2012

Uma noite - há muitos anos - sonhei que um dia estaria na marina de Camaret a bordo de um barco holandês a comer porco feito por um inglês que se enganou no caminho e há meia dúzia de anos veio viver para França; sonhei que estaria frio, frio de enregelar, frio de morrer, frio de beber whiskey après whiskey no Bar-Snack Ar Men, no bar Notic ("Retour automatic") ou em qualquer bar que estivesse aberto numa noite de sexta-feira; sonhei que o vento estaria Sudoeste, o que é normal porque eu quero ir para Sudoeste; sonhei que gosto da Bretanha como se cá tivesse nascido, o que só acrescenta a Bretanha a uma infindável lista de lugares que amo como se em cada um deles tivesse nascido; sonhei ainda que um dia sonharia tudo isto, o que só demonstra que os sonhos são circulares, sonham-se a si próprios tal como nós nos sonhamos, e os sonhamos, um dia. 

Ou uma noite, vai saber.

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O ano tem muitas estações: a estação do rum, a do whisky, a do vinho. Tem mesmo uma estação que te é dedicada e dura doze meses; menos uns copos.


Este ano nasceu bêbedo e entaramela as estações todas.

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Camaret-sur-Mer fica na entrada do Goulet de Brest; tem duas ruas e três marinas; ou o inverso, mais provavelmente. Tem vento (menos ontem), nevoeiro (sempre), chuva (todos os dias) e sol (às vezes).

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Parece uma viagem ao passado.

(Não gosto do passado. Prefiro o futuro, mesmo já o tendo sonhado.)

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O barco chama-se SOGNO. É um Saffier 32, bonito, bem equipado. Mas 32' são 32'; é uma quantidade insuficiente de pés para acender uma paixão; ou um amor, sequer.

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Por vezes parece-me que a expressão "navegação de recreio" devia ser revista, reformulada. Seria simples: bastaria retirar-lhe "de recreio". Ou substituí-la toda por "vida", talvez. Ficaria assim: "a vida no Canal da Mancha pode ser bastante exigente"; "a vida no canal da Mancha não é para meninos"; "a vida no Canal da Mancha tem momentos de uma beleza que nenhum frio, nenhum nevoeiro, nenhuma corrente consegue apagar".

"A vida no Canal da Mancha começa e acaba invariavelmente num bar da Bretanha a ouvir Touré Kunda e a pensar na vida na Biscaia."

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A senhora das Boucheries Réunies tem uns brincos atrozes, um sorriso bonito, um Camembert muito para lá do aceitável e um saucisson sec divino. Dispenso os brincos.

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As mulheres bretãs mudaram. Estão mais bonitas. T. acha que é por causa do automóvel, que as leva ao ginásio. Parece-me um raciocínio demasiado inglês para ser falso.

Os homens estão iguais. Já te contei a minha história do Aber Wrac'h? É uma história de silêncios, cumplicidades e outras coisas bretãs.

Não é bem uma história, no fundo. É uma nostalgia.

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O bar vai fechar. No sábado a vida continua.

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O rapaz do sítio onde almocei insiste em falar inglês comigo. O inglês é aproximativo e o sotaque abominável; tem uma cara de imbecil como raramente tenho visto. É lamentável que a França esteja a mudar ao ponto de até os empregados de café falarem inglês. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Brighton, Reino Unido, 26-06-2012

Resumindo, a vida é uma sucessão de presenças e ausências. As tuas, por exemplo, as do medo. Dez dias de mar. Eu nele, ele em mim. A Horta, de onde largámos, é linda, e não lhe vi nada a não ser as nuvens cinzentas, as ruas limpas, as encostas verde-tudo, a gente boa e a comida boa e barata -- não comia lapas desde os quinze anos, e durante os próximos quinze não me esquecerei do gosto das do Peter. O gin tónico é outra coisa, aquele gin tónico é leve como eu sou quando me esqueço de que a vida é uma sucessão de presenças e ausências -- as tuas, por exemplo, as do medo; as da linda L., com quem estive meia hora no aeroporto de Toronto; as da gente boa que conheci em Charlotte, taxistas etíopes gordos, tarantinófilos de gema, apreciadores de futebol e de vinho do porto; a tripulação que deixei como se deixa uma família que nos dá liberdade.

Porque é que o mar é tão importante? Há milhares de adjectivos e eu escolho, para ele, a palavra importante. Porquê? 

Coisas que não se pode fazer no mar:

1. Ir para o mar e decidir que não se quer estar no mar. O mar é que decide quando saímos dele e quando sai de nós. Saí dele quando ele decidiu, e ele ainda não saiu de mim. Sei que não saiu porque quero voltar a ele.

2. Discutir*. Porque o mar grita mais do que nós, pode mais do que nós, tem mais razão do que nós.

3. Desconfiar. O mar não tolera irrelevâncias.

4. Ser infeliz. O mar não tolera irrelevâncias.

5. Assobiar. Dizer "coelho". Ter frio. Tomar banho muitas vezes -- infelizmente. 

Coisas que se pode fazer no mar:

1. Amor.

2. Ter medo. Não se pode, porém, ser tido pelo medo. Ter medo no (e do) mar é o mesmo que estar vivo: natural e às vezes doloroso, mas ainda assim bom. Ser tomado pelo medo sem o conquistar é deixar de ser. O medo no mar, como na vida, deve existir apesar de nós, isto é, não deve confundir-se connosco: ele é uma coisa, nós somos outra. É natural ter medo de ser uma coisa pequenina no meio de uma coisa tão grande, ter medo de ser engolido por uma vaga, de não ter experiência, inteligência ou força suficiente para impedir o barco de adernar mais do que a conta. No entanto, quando a água mágica, fosforescente nos lambe o convés, não há muito a fazer senão pensar que Deus fez as coisas bem feitas. O barco flutua sobre uma coisa linda e perigosa, mas não tão linda e perigosa que um homem comum não a consiga conquistar. 

3. Tolerar-se. Estar só a governar durante duas ou mais horas é mais difícil para quem não se governa. A princípio, apercebemo-nos de que se não nos governarmos somos governados (pelo mar e pelos nossos pensamentos); depois, com o tempo, aceitamos: primeiro as circunstâncias -- "este é o meu quarto e tenho de o fazer comigo" --, depois as escolhas -- "eu estou no mar porque quero, comecei esta viagem porque quis, não poder não estar aqui é a consequência da minha escolha" -- e, por fim, as vantagens -- "sei de mim muito mais do que sabia antes de embarcar. Sei que não me tolero e que quero aprender a tolerar-me", por exemplo. 

4. Comer bem. Matar saudades de enchidos e bacalhau, imitar com atum-amarelo uma sopa de cação magnífica que se comeu em Évora, fazer um cebiche meio decente, um bolo de chocolate assim-assim, uma feijoada à transmontana com couve chinesa.

5. Partilhar. Muito e sempre.

6. Rir e disparatar. Que bom que é quando se faz, que bom que é quando se sabe fazê-lo.

7. Desejar um duche quente. E estar tão sujo quando se chega que, em vez de um, se tomam três antes de vestir uma peça de roupa lavada.

8. Aprender. Tudo de novo, como uma cria de lobo que sai da toca pela primeira vez. (E ler os lobos de Jack London, da terra e do mar.)

Concluindo, podem fazer-se no mar muitas mais e melhores coisas do que aquelas que não se podem fazer. A liberdade é uma questão de perspectiva, como a ausência e a presença. As tuas, por exemplo, as do medo. Tu nunca te foste embora e o medo de não te voltar a ver já se foi. Mas, se não te importas, despacha-te, que governar sem ti torna os dias e as noites longos, intermináveis.

*-- em terra também não.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Brighton, Reino Unido, 22-06-2012

Converso com T., o skipper com quem vou até Vigo, sobre Gibraltar. Acha aquilo completamente desinteressante. É forçoso reconhecer que tem razão; Gib nem uma sombra é do que foi. Mas alguns locais são como alguns amores: não mudam. O que um dia foram serão sempre. E Gibraltar é um desses locais, pelo menos para mim. 

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Azáfama na marina. 60 nós de vento, medidos pelo nosso vizinho. Ao que parece até um mastro partido houve. Os brandais não deviam estar em muito bom estado; felizmente foi na marina, e não no mar. Dobram-se e triplicam-se cabos, passam-se alguns onde não os havia, afastam-se barcos, reforçam-se defensas, peia-se tudo o que está nos conveses e nos rufos.

No DARK HORSE rasgámos o abominável bimini top e as duas capas das velas. É chato para M., que está sem dinheiro e quer vender o barco. Mas não é grave.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Brighton, Reino Unido, 21-06-2012

Largámos a tempo: quatro dias é uma escala. Mais teria sido turismo.

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A água está muito fosforescente. Por vezes uma vaga rebenta não muito longe do navio e parece que temos um paquete aqui ao lado. E quando rebentam no poço (muito poucas, graças a Deus) parece que ficamos com guirlandas.

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Cinzento e frio: bem vindos ao verão do Atlântico norte. Não percebo como é que há pessoas que são contra o aquecimento global. Se eu morasse na Europa do norte e rezasse rezaria todos os dias para que a terra aquecesse, e depressa.

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550 milhas até Ouessant: 550 milhas até um passado distante.

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150612 - Ficaram o vento e o frio, voltou o sol. Estamos num fluxo de oeste provocado por uma baixa que está para norte da Biscaia, e espera-nos - se a previsão se revelar tão acertada como até aqui (o que me faria gritar milagre! e cantar laudas à Passage Weather) - um fluxo de oeste provocado pela extensão para norte do anticiclone dos Açores. Entre os dois, talvez haja um período de calma. Ou talvez não, e nesse caso dentro de três dias chegamos. [Não chegámos. O Anticiclone dos Açores não veio tão para norte como a Passage Weather previu. Fizemos os últimos dois dias a motor.]

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Isle of Wight, entrada leste do Solent - Pôr-do-sol: é como navegar dentro de um quadro do Turner. Porque será que nunca nos cansamos da beleza de um nascer ou pôr-do-sol, por muito foleiras que lhes achemos as fotografias e as descrições?

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210612 - Chegámos ontem, mas a viagem ainda não acabou. Só acaba quando o barco estiver limpo e em condições de ser "entregue" (entre aspas porque o armador está a bordo). Neste caso as limpezas são um bocadinho mais a fundo porque o barco vai ser vendido e já há duas visitas programadas.

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Se tudo correr bem embarco na segunda ou terça-feira para o Mediterrâneo num Saffier 32.

domingo, 10 de junho de 2012

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Diálogo

- O Peter é a minha segunda casa.
- Qual é a primeira?

Horta, Açores, Portugal, 07-06-2012

Largámos às quatro da tarde de Marigot Bay. Na manhã seguinte estávamos a reparar velas. Estão, como dizer, velhotas. Por causa disso passámos um dia inteiro de yankee 1 e trinquete, sem a grande, que esperava pela secagem da cola de contacto. Mesmo assim fizemos 170 milhas.

O "DARK HORSE" é uma embarcação magnífica, armada em escuna; 60', 23 toneladas, 33 anos, 7 tripulantes, 2200 milhas pela proa, E, ENE e ESE 3 a 5, mar de pequena vaga a moderado, sol. Deve haver maneiras melhores de começar uma travessia, mas eu não sei quais são. Talvez começar com uma alheta? Não. Gosto da bolina, é a maneira mais rápida de amarinar a tripulação e de julgar o bote.

E o bote é magnífico. Parece que foi desenhado para mim.

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Passámos o Trópico de Câncer à meia-noite menos um minuto. Estamos oficialmente fora dos trópicos. Os alísios continuam, graças a Deus, se bem mais variáveis. A velocidade baixou. A tripulação está quase toda amarinada - falta a N. e L., estamos a tratar delas.

O tempo continua óptimo.

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Um gajo está deitado no camarote. Sente os movimentos do barco, o barulho da água no casco, mas tudo parece imóvel.

Pouco depois está no poço, caneca de chá na mão, à espera da sua vez de governar. As noites já não estão quentes, mas ainda não estão frias. Amanhã tenho de pôr uns sapatos, pensa. O barulho da água é diferente, e é o mesmo: alegre, leve. 15 nós de vento real; com os 8 da velocidade os 20 de vento aparente já fazem os brandais zumbir. Tudo o é leve. A noite, o leme, a ideia de que os próximos 12 dias (se tudo correr bem) ou 15 (mais provavelmente) serão passados aqui. Nem todos serão assim, claro: haverá mau tempo, chuva.

É impossível definir de onde vem esta sensação de estar nos braços de um deus feliz, ou nos de uma deusa bela, sensual e libidinosa.

Ao quarto dia o vento caiu, finalmente. Já vamos no segundo peixe - um mahi mahi ontem, um bonito hoje.

A comida não é o ponto forte desta viagem, mas o Mike compensa esta ligeira deficiência sendo um óptimo pescador. (Se não fosse o peixe o regime seria totalmente vegetariano).

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O frio passou. Hoje de manhã tivemos o primeiro aviso do que está para vir: céu nebulado e frio.

Motor, motor, motor. Começou hoje às duas e meia da tarde; e vai durar pelo menos mais dois dias... Ficar parado no meio de nada é chato; avançar com este barulho é uma merda. Deve ser uma das mais perfeitas definições de dilema que conheço.

O vento voltou, e com ele o frio: traz com ele um bocadinho do norte de onde vem.

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"O que é que você quer que eu faça de si' N.?" Não perguntei. Na verdade a rapariga interessa-me pouco - é gira e bem feita, mas no mar essas qualidades (no sentido de características) são irrelevantes.

N. é brasileira. Além de bonita e boa deve ser rica, ou pelo menos vir de uma família que o é. Não sabe decerto o que o universo, nem o que é um centro, mas se soubesse considerar-se-ia o centro do universo. Hoje houve uma pega abordo: um inglês mais ou menos operário de Liverpool e uma brasileira mais ou menos idiota de São Paulo não se compreendem muito bem, por muitos esforços que façam. E nenhum deles faz.

C. pediu desculpa, quando saiu de camarote e se juntou a nós. N. estava ao leme e não respondeu. "N.?", chamei. "Ainda não posso". A verdade é que os dois têm culpa; e ainda mais verdade que me estou completamente nas tintas.

Não sou super-homem, nem bom pastor. E há muito abandonei a ilusão de que era ambos, ou pelo menos um pouco de cada. O objectivo não é sermos amigos, é sermos um tripulação; e se dessa tripulação saírem algumas amizades tanto melhor; se não, paciência. "O que é que você quer que eu faça de si, N.?"

Se quiser ser tripulante eu posso ajudar, e gostaria muito; se preferir ser passageira, vou ignorá-la. A escolha é sua, e eu limitar-me-ei a esperar que a faça.

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Continumamos à vela, com um vento fracote mas suficiente para nos fazer andar a 5 nós. É pouco, mas melhor do que nada e infinitamente mehor do que os 5,5 que fazemos a motor.

Estamos quase a chegar à "esquina"; amanhã ou depois de amanhã "viramos à direita".

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Os dias passam a correr. Mal acabo o pequeno almoço é noite e já jantamos e estou a vestir-me para o quarto; é intrigante, porque se me perguntarem "o que fizeste durante o dia" não sei que dizer. Naveguei, li, dormi, comi, lavei a loiça, naveguei, mareei os panos, tomei um duche, dormi, naveguei, comi - não fiz nada, em suma. E apesar disso amanhã faz uma semana que saímos de St. Martin, e estaremos provavelmente a pouco mais de outra semana da Horta. Largámos ontem, chegamos logo, daqui a bocadinho.

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A lua vai crescendo. Mais dois dias e estará em quarto crescente; vamos chegar à Horta com ela cheia. Gostava de a ver logo atrás do Pico, um dia.

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Estou ansioso por revisitar a Horta. Tanto vivi, lá...

Visito o meu passado como se não fosse meu, como se fosse a vida de outro, ou outra vida.

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"I am all things, save soul of fellow men / And the very God" Tennyson.

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Vais ao leme e divagas. Divago, Jivago. A divagar se vai longe. Porque é que longe é melhor do que perto? E se tentasses seduzir-me? Seduz-me tu. É a tua vez. Senhoras primeiro. Daqui a pouco haverá vento. Quem é A? Como sabes que ela verá vento? Quem é ela? Aquilo é a Via Láctea; ali está a Polar. Vai alta, agora, estamos cada vez mais perto dela. Estás com a cabeça nas estrelas. E os olhos no vento. Gosto dos sítios de onde não se vê a Polar e de ouvir os brandais a vibrar. E eu de quando tu me fazes vibrar. És o meu vento. Divagas. O vento chegou. Chegámos. Terminus. Tout le monde descend. Para onde vamos? Para longe; perto é um não-lugar. Mas eu gosto de te ter perto de mim. Eu sou um não-lugar. Amo-te. Tira os olhos da Polar, não olhas se não para ela. Mentira. Também olho para Sirius, e para os Gémeos. Castor e Pollux. Não vejo Orion. Só te vejo a ti. Não vês nada. Divaga. Aí está o vento. E o porridge. 7 nós e meio e os brandais a vibrar. Concentra-te. Deixa as estrelas. Seduz-me. Daqui a pouco estamos nos 20 nós de vento. Seduz-me.

20 nós, 25, de vento; 8, 9, 10 de VMG.

Sonhos síncronos.Continuas a delirar. O barómetro baixou, finalmente. Depois de o vento chegar.

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290512 - Os trópicos deixaram-nos, definitivamente. Calças, camisa de manga comprida, botas, veste de quart e frio, muito frio, apesar disto tudo.

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300512 - As velas estão podres, completamente podres. Rasgam-se só de olharmos para elas. Esta noite foram 4 rasgões, no trinquete e na grande. A unidade de base é 25 cm. Reparamo-las com montes de cola de contacto e pano - o M. tem uma enorme reserva de tecido velho, podíamos fazer uma vela nova.

Mas os rasgões no trinquete vão ficar assim. Precisariam de praticamente toda a cola que temos.

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Nós é que somos hóspedes da vida, seus convidados. E ela é uma anfitriã generosa: pôs à nossa disposição o mar, o vento, as senhoras (e os senhores, para elas), as estrelas, o vinho e o rum e tantos milhares de coisas boas. Devemos portar-nos bem, em casa da vida; mas usufruir de tudo o que ela nos oferece. "Esta é a minha casa. Abusem, nada me faria mais feliz do que vê-los abusar de tudo o que aí está". Mas depois acrescenta, para os mais distraídos "mas não se esqueçam de que a casa é minha. Não é vossa".

"O meu país é uma embarcação de vela". Em inglês teria ficado "my country is a sailing boat". C. pergunta-me se Portugal me falta; "não". E se penso lá voltar a viver? "Não". "Onde vais assentar, se um dia assentares?" "Não sei, ainda é muito cedo para pensar nisso".

"O meu país é um barco à vela" ocorre-me depois. Ainda bem que não veio a tempo para a conversa.

A minha pátria é um veleiro no oceano.

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Pode mentir-se a quem se quiser - ao patrão, ao cônjuge, aos amigos ou ao fisco - mas não se pode mentir ao mar.

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"A água está suja? Então beba sumo de futas, N.". "Suco de frutas? Mas nem gelado está".

Um barco não é uma residência secundária.

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Frio cortante, ácido, que corrói a roupa, a pele, a carne e nos deixa omo se tivéssemos os ossos expostos.

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Uma está "sem energia psíquica", a outra "só quer morrer", uma terceira tem medo da própria sombra; um deu um jeito nas costas e mal se tem em pé (mas governa magnificamente) e o outro, marido da que tem medo, é incapaz de manter um rumo mais de cinco segundos (e pela conversa dele há outras coisas que não deve conseguir aguentar mais de cinco segundos, mas isso é problema dele, e dela). É isto uma tripulação?

Força 4 a 6 para a chegada. Mas não deve ser suficiente para podermos beber um G&T no Peter.

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Duas melancias sobre as quais assenta uma outra melancia, com duas enormes melancias por cima, (quando não tem soutien achatam-se e espraiam-se pela barriga); tudo isto encimado por uma outra melancia, mais ou menos aredondada. O corpo de L. é uma composição de melancias.

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São sete e meia da manhã. O céu está coberto, cinzento escuro, mas o sol nascente ilumina Horta. O branco das casas contrasta com o fundo cinzento do céu. O porto está cheio de iates de todo o tipo e feitio, que começam a movimentar-se: agora entra um sublime sloop, um Class J que não identifico mas devia [era o ENDEAVOUR]; um catamaran sai; uma espécie de ruína ao lado da qual o DARK HORSE faz figura de barco novo sai e iça pano à entrada do porto. Do lado dos grandes também há movimento: o MADEIRENSE 3 vem de marcha a ré para atracar - não pode fazer de outra foma, o porto está cheio de iates fundeados e não há espaço para manobrar.

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A chegada foi no Peter, claro. José Henrique não se lembra de mim, naturalmente: há 30 anos que não vinha cá, e mesmo quando estava nos Açores só ocasionalmente vinha à Horta.

Ficámos fundeados ao lado do SIDNEY ROCK OYSTER, com quem falámos no mar; e um bocadinho perto de mais do SANTORINI EXPRESS. Foi uma entrada bonita: 23 toneladas à vela, sem vento, à bolina, de noite.

Vai custar-me cara, tanta felicidade, de certeza. Ou então está paga, paguei-a adiantado.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Marigot, St. Martin, 30-05-2012

Não me atrevo a dizer "Hoje é o último post de Saint Martin". Isso quereria dizer que perdi a esperança de voltar -- ainda não, porque a esperança é uma doença quase incurável. Direi, por isso, "Até Outubro, St. Martin", se Deus quiser. 

O armador saiu um dia depois do que tinha anunciado, para desespero de toda a tripulação e restante criadagem. O dia de ontem, aquele em que não partiu, foi interminável -- como têm, de resto, sido todos os meus dias aqui desde que esta viagem começou (resta-me perguntar se o conceito de viagem inclui isto que fazemos, não ir praticamente a lado nenhum, ficar nos lugares que já conhecemos sem os viver, não tirando deles mais do que uns minutos de vento que não é, felizmente, igual em todo o lado). Fiz uma bolognese impressionante no micro-ondas (impressionante exactamente por ter sido feita no micro-ondas), deixei cozer a massa de mais, comi todo o chocolate que o Luís me trouxe (não foi do Brasil, suponho que tenha sido do aeroporto) e mais algum que consegui encontrar. A ansiedade dá-me para comer, a angústia para não comer. A angústia já passou.

Os senhores despediram-se de mim com um «see you soon», como se me fossem ver na próxima "viagem". O pedido de desculpas não veio, claro, e o salário também ainda não. Há três coisas nesta família que me deixarão saudades: o sorriso do bebé quando lhe digo um disparate qualquer; o acenar do outro bebé pela manhã, que sabe que não falamos a mesma língua mas quer, ainda assim, comunicar; poder ficar com as caixas da Hermès que eles deitam fora como se não fossem peças de design extraordinárias para guardar pares de meias ou elásticos de cabelo, sei lá.

K., o cozinheiro, deu-me um abraço tão apertado e comovente que levou S. a dizer «get a room!» (às vezes sinto-me outra vez no liceu, só que ainda mais desajustada do que quando não sabia responder às piadas parvas da miudagem com quem nunca me identifiquei). Também vou ter saudades dele, e de ver M. atirar-se à água de cuecas porque perdeu uma aposta com o patrão.

O barco que vou deixar vai passar metade do Verão em Antígua, a terra que eu, em tão pouco tempo, aprendi a amar como se fosse a minha, onde fui mais feliz do que na minha, onde gostaria, um dia, de ser mais feliz ainda -- a esperança, já o disse, é uma doença quase incurável. Será que voltarei a sentar-me ao balcão do Mongoose e beber o melhor rum punch do mundo preparado com carinho pela Connie ou pelo Junior? Verei outro fim de dia do gazebo do Reef Gardens contigo e o gato Lager ao pé? Comerei outra refeição magnífica feita pelo Serge no Rum Baba? Abraçarei a Ilaria por me ter contratado com um ano de antecedência para cantar na noite de São Valentim? Ouvirei o clarinetista John tocar no Café Club enquanto seduz uma ou outra senhora à frente da mulher? Conhecerei mais mil pessoas diferentes que me sorrirão como se fôssemos amigas desde o princípio dos tempos, como aquela senhora adorável que adora Sintra e dança como se tivesse um Fred Astaire dentro dela mas ao mesmo tempo lhe faltassem os parafusos todos?

Na segunda-feira parto. Daqui para Charlotte, na Carolina do Norte, onde passo a noite; na tarde seguinte, de Charlotte para Toronto, onde vou estar duas horas com a minha querida L., que não vejo há tanto tempo, desde que emigrou; no mesmo dia, de Toronto para Ponta Delgada, onde chegarei na manhã do dia seguinte; à tarde, apanho um voo para a Horta onde espero embarcar no DARK HORSE, se Deus quiser. 

Por favor.

sábado, 26 de maio de 2012

Gustavia, Saint Barthélemy, 26-05-2012

-- You are reckless! This is your salary, did you know that?

Limpar sanitas de ricos não é uma humilhação. Nem sequer apanhar as suas cuecas do chão. Muito menos o é ver o trabalho (duro, sem folgas) de um mês comparado com um objecto caro e piroso desenhado por uma das mais famosas casas de moda da nossa praça. A humilhação não pode ser infligida, apenas sentida. Aprendi isso nos últimos cinco dias (felizmente, só demorei 24 anos a aprendê-lo). Quando somos adultos e a nossa consciência funciona, não podemos ser magoados, apenas sentir-nos magoados. Parece um pormenor, mas faz toda a diferença. A humilhação que sofri só é real porque a senti. Saída da boca do meu patrão não é nada; só existe quando entra nas minhas células e causa a reacção de nojo que me causou. Isto é válido para a maioria dos sentimentos (vergonha, abandono, até amor), a menos que sejamos crianças. Quando somos crianças, o que os outros nos dizem é tão real como aquilo que sentimos. É por isso que educar uma criança é a tarefa mais difícil e mais subvalorizada de todas. A maioria dos pais faz o melhor que pode (aposto que os pais do meu patrão fizeram o melhor que puderam), e mesmo isso não parece suficiente. «You who must leave everything that you cannot control/It begins with or family but soon it comes round to your soul», canta Cohen. Ter-me libertado da humilhação que senti quando ouvi aquelas palavras significa que é possível controlar o poder das palavras dos outros. Resta-me aprender a controlar o das minhas.

Os barcos são meios de transporte. Uma pessoa pode chamar a um barco a sua casa, fazer dele a sua casa, mas isso não modifica o seu carácter: um barco é um meio de transporte. Se uma casa for sacudida por um terramoto, há uma possibilidade de os objectos que ela contém caírem e se destruírem. No mar existem ondas, equivalentes para um barco a pequenos terramotos. É por isso que a maioria dos mega-iates (usados como casas, como hotéis) têm tudo pregado ou colado às superfícies. As mesas e os sofás estão presos ao chão, os candeeiros às mesas, os objectos decorativos às prateleiras. Quando as coisas não estão coladas e o barco está em movimento, colocam-se num lugar onde se acredita que não se vão partir. Na última vez que viajámos, coloquei o objecto que se partiu entre dois almofadões de uma poltrona, onde sabia que estava seguro. Quando voltei ao camarote, onde o dono tinha estado, o objecto estava no chão. Parti do princípio de que, ainda que estivéssemos em movimento, o dono não queria o objecto onde ele estava, e preferia que estivesse no chão. Passei a colocá-lo sempre no chão. Fez algumas viagens curtas sempre no chão, sem se partir. Ontem partiu-se e o armador passou-se, perguntando-me porque não o tinha posto em segurança. É claro que não me deixou responder.

Acredite o leitor, se quiser, que não se perdeu nada. Tive mais pena das orquídeas que estavam no vaso e se despedaçaram com o impacto do que do vaso em si, da perda do dono ou do trabalho que tive a limpar a merda da carpete manchada de terra húmida. Sempre que olhava para a coisa achava que o mau gosto não tinha limites, ideia que só confirmei quando o armador terminou a "conversa" com a boca sobre o meu salário.

Disse ao capitão o que me fora dito, que o armador queria falar com ele. Informei-o de que estava mais do que disposta a abdicar do meu salário, mas que se o caso fosse esse desembarcaria no momento, porque não só não podia ser acusada de um acidente como não via necessidade de pagar com o meu salário e com o meu trabalho. Para meu espanto, quando o capitão voltou anunciou que o armador lhe tinha pedido desculpa pela maneira como falou comigo e que não queria tirar-me o salário. Não tentarei, sequer, perceber porque não me pediu desculpa a mim.

Desde que Gianni morreu que a Versace nunca mais foi a mesma.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 21-05-2012

Hoje é o último post de St. Martin. Depois do almoço largo para o Reino Unido, via Açores, no S/Y DARK HORSE, um magnífico Southern Ocean 60. Se tudo correr bem, dentro de duas a três semanas estarei na Horta, a beber um gin tónico.

sábado, 19 de maio de 2012

Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 19-05-2012

Todas as marinas têm um restaurante cujo mercado são as pessoas que nela trabalham, os marinheiros entre dois embarques, todos aqueles que não estão de férias. Na marina Royale, em Marigot, esse restaurante chama-se Le Sous-Marin e hoje fui lá jantar. Inequívoco sinal de que aterrei em St. Martin, e estou em casa. E em França, a França de que gosto, a França do bom gosto barato, da simpatia real, humana - por oposição à simpatia profissional, pré-fabricada, quero dizer -.

O senhor do Sous-Marin - um lugar um bocadinho tristounet, verdade seja dita, mas onde se come muito bem e barato - é casado com uma portuguesa de S. Pedro de Alva. Não sei onde fica S. Pedro de Alva, mas algo me diz que na segunda-feira vou saber: ele mostrou-me uma brandade de morue e eu respondi-lhe com um bacalhau assado no forno. Não que seja dado a saudades, mas a ideia de ter uma senhora a fazer-me um bom bacalhau no forno enche-me as medidas todas, tão por baixo que elas estão, coitadas.

A felicidade é uma sucessão de momentos que se devem agarrar, um a um; e acumular antes que fundam como chocolate ao sol, o que inevitavelmente acontecerá.

Procuro um trabalho para o verão. As possibilidades são muitas: desde o Pacífico às Maldivas, passando (claro) pelo Mediterrâneo, pela Alemanha (é o destino de um barco que vai sair em breve dos Estados Unidos com o qual estou em negociações) ou, mais modestamente, Trinidad, aqui ao lado. Não sei qual delas prefiro. Nenhuma, na verdade: todas me atraem igualmente. Preciso de navegar, só. Onde e porquê interessa-me pouco. [Vou ter de dizer não ao da Alemanha, apesar da viagem ser magnífica: "...up the eastcoast to New Foundland, Greenland, Iceland, Faroes, Shetland, Norway into the Baltic to Germany". Paciência. Não estou - nunca estarei - em maré de partilha de custos, excepto com amigos, e próximos].

Ou seja: o mundo desfila-nos à porta como um metro com um condutor bêbedo.  Às vezes o senhor lá consegue acertar com uma paragem e abrir as portas; às vezes essas portas abrem-se à nossa frente; às vezes nós damos o passo em frente antes de o condutor bêbedo do metro as fechar de novo. E lá vamos, numa viagem de que não conhecemos o fim; mas sabemos que tudo é melhor do que estar na paragem do metro à espera que passe o próximo.

Acredito muito no destino que fazemos, e pouco no que sofremos. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Marigot, St. Martin, Antilhas Francesas, 17-05-2012

Apanhei o avião na Segunda-feira dia 14, à tarde; ele chegou uma hora depois, mas eu só aterrei ontem. Un léger décalage, diria um francês. Três dias a décaler: accras, boudin créole, colombos divers, assiettes créoles, vinho tinto e branco, pastis (enfim, Ricard), rhum vieux, rhum blanc, tartines, civilização sob todas as suas formas, tudo isto culminou ontem num braai a bordo do J., o mega-iate onde a metade pensante de mim trabalha muito, de mais, e se diverte um pouco.

Um braai para um sul-africano é muito mais do que um barbecue para um francês, um barbeque americano, um churrasco em Portugal. É identitário; a comparação que me parece mais próxima é a do churrasco gaúcho. Um dia em Kindu propus aos pilotos - uma equipe sul-africana - que fizéssemos um braai. Andy, o co-piloto, olhou para mim zangado e respondeu "com que direito usas a palvra braai?" As condições eram dificeis, é preciso dizê-lo; quase todos os dias nos atiravam para o avião, e se bem nenhuma bala tenha furado a blindagem o barulho (um blang surdo, que me fazia pensar nos livros que li sobre submarinos e de como eles recebiam o bling dos sonares) acabava por se tornar maçador.

Disse-lhe que era de Moçambique, e fui aceite.

Ontem o braai estava magnífico. Estava também a tripulação de um monocasco de 74' lindo e consegui, finalmente, tirar de mim o Brasil.

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Preciso dizer que a viagem de avião foi muito bonita: na primeira parte, de Belém para Guadeloupe, havia praticamente todas as nuvens do catálogo. Não vi cumulo-nimbus (felizmente); mas de resto estavam todas.

No dia seguinte, da Guadeloupe para St. Martin, o reflexo do sol fazia do mar um tapete brilhante, prateado, sulcado pela ondulação como se estivesse lavrado. Nessa folha branca, ou cinzenta muito clara, brilhante, havia por vezes um buracos, crateras negras, claramente demarcadas em três dimensões - era a sombra das nuvens.

Por vezes não havia nuvens, e os buracos negros tinham realmente três dimensões - eram ilhas, não ilusões de óptica fascinantes, hipnotizantes.

........
De maneira já fomos a duas entrevistas e já temos emprego  para Outubro. Agora basta encontrar qualquer coisa até lá. Podia ser pior. 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Le Gosier, Guadeloupe, Antilhas Francesas, 13-05-2012

Bye bye Brazil? Eu já devia saber que no Brasil qualquer tentativa de gastar menos dinheiro resulta invariável e inevitavelmente em duas coisas: a) gastar muito mais do que o custo inicial e b) perder uma quantidade de tempo completamente desproporcionada quer com o custo inicial quer com o custo depois da "poupança".

Em São Luís lembrei-me de que estava no último dia do meu visto de turista e por conseguinte era necessário prolongá-lo. Como sempre estas coisas acontecem à última da hora do dia da partida. Apanhei um táxi e aí fui, a chicotear o motorista como num filme de cowboys. O trânsito naquele dia estava realmente infernal e demorei uma eternidade a chegar; pelo sim pelo não pedi ao senhor para me esperar, porque não sabia quanto tempo ia demorar e não queria arriscar-me a ficar sem transporte para a volta.

O processo foi de uma rapidez tal que eu devia ter desconfiado. O agente da Polícia Federal, onde estas coisas se tratam, perguntou-me quando é que eu saía do Brasil, eu disse "amanhã [sexta-feira] ou domingo", ele respondeu "então é melhor pagar a multa, porque se eu lhe fizer agora o prolongamento você vai pagar muito mais", eu perguntei "quanto é a multa?" "oito reais por dia" "e o visto?" "sessenta e sete reais" e eu pensei nos sessenta euros de táxi que ia pagar, mai-los sessenta e sete reais de visto e pensei "vou pagar a multa". Mas manda a verdade que antes de tomar essa decisão estive vai não vai para dizer ao senhor "não, eu prefiro pagar a multa"; mas depois pensei "porra, com um bocadinho de sorte ainda me vou embora amanhã e se calhar nem pago nada ou então pago oito reais e na pior das hipóteses pago vinte e quatro" e disse "ok, obrigado, nesse caso pago a multa".

Em Belém fui fazer o check in e a senhora disse-me que eu tinha de ir à Polícia Federal porque tinha excedido a estadia e eu disse que sim claro e ela sorriu "eu fico com o seu cartão de embarque porque só lho posso dar depois de você ter regularizado a situação" ao que respondi "não faz mal é sempre um prazer rever uma senhora bonita" e ela sorriu outra vez e eu fui à Polícia Federal, que é na outra extremidade do aeroporto. Quando lá cheguei o agente da Polícia Federal, a simpatia em pessoa disse-me que só podia fazer os trâmites depois de eu ter o check in feito e que tinha de ir buscar o cartão de embarque; eu expliquei-lhe que a senhora etc. e tal e ele respondeu tal e etc. e eu fui buscar o cartão de embarque.

Quando regressei iniciou-se um diálogo exploratório: eu queria saber exactamente as alternativas todas e as alternativas são de uma simplicidade aterradora, a saber:

a) "Só há dois sítios onde pode pagar, um banco e a lotérica" [mas hoje é domingo e estão fechados];
b) "Pode pagar no seu país se no país onde vive existir um Banco do Brasil" [não vivo em país nenhum, mas em algum por onde passarei qualquer dia haverá decerto uma agência do Banco do Brasil];
c) "Pode regressar ao Brasil e pagar na entrada, mas vai ser uma complicação muito grande, o seu passaporte vai ficar retido e vai ter de ir pagar" [e eu imaginei-me logo a viver uma de Catch 22 tipo não pode entrar no Brasil enquanto não pagar e não pode pagar porque não pode entrar no Brasil].

Bom, seja como for é preciso fazer o auto e o senhor agente, que é, insisto, de uma simpatia arrebatadora pergunta-me o nome do pai, da mãe e a morada. "Qual morada, a minha ou a dos meus pais [o meu pai já morreu, mas não lhe vou dizer isso porque não quero introduzir mais energia no sistema]. "A sua". Dou a do Reef Gardens, de qualquer forma foi a última e quem me dera fosse a próxima em breve.

Três quartos de hora depois - não é uma imagem, na realidade foi um bocadinho mais de três quartos de hora o senhor agente apresenta-me cinco ou seis folhas de papel para assinar. Havia um termo de notificação, um auto de infracção (cada um destes em dois exemplares, um GRU - Guia de Recolhimento da União - e (na mesma folha) um recibo.

Uma vez assinados estes papéis o senhor agente teve de pedir a três colegas, dois dois quais que por milagre tinham acabado de entrar no escritório da Polícia federal, para assinarem também, porque o auto e o termo requerem quatro assinaturas - uma do agente que os faz e três testemunhas.

Na posse dos papéis todos ele, senhor agente diz-me "agora quando pagar ande sempre com o recibo" e eu digo-lhe "sim, claro" mas faço uma cara de estranheza, pois se aquilo está pago e ele lê a minha expressão e diz "é que isto não é pagar e depois fica liberado. Ainda leva dois meses, ou três, às vezes um ano para sair do sistema". Perguntei-lhe como é que é possível e ele fez uma cara de sofrimento e explicou-me que aquilo ia para Brasília e etc. e tal. "e durante um ano o seu nome vai ficar aqui nos sistema como tendo excedido a estadia".

O montante da multa é vinte e quatro reais, aproximadamente nove euros.

E quem não acreditar nisto pode ir ao site do Banco do Brasil e tentar encontrar uma cotação de câmbio. O percurso até se chegar à dita cotação é um monumento à incompetência, à doença mental, só um doente é capaz de organizar um percurso como aquele num site.

Bye bye Brazil? Não tão depressa, meu caro.

Durante um ano vou ter de andar com o recibo no passaporte (isto admitindo que um dia encontrarei onde pagar a malfadada multa, não vá dar-se o caso de ter que cá voltar, coisa que espero do fundo dos meus fundos não aconteça, pelo menos tão cedo para já).

O Brasil é uma gigantesca anedota, é uma potência mundial no campeonato do absurdo, e se isto é a quinta potência mundial eu sou a Miss Galáxia. E, ainda por cima, não é o meu país. Porque quando nós andávamos a dar cartas neste campeonato - e Deus sabe que demos e ainda damos muitas, Simplex ou não - eu pelo menos no meu país posso gritar esbracejar e ser sarcástico e lixar-me ainda mais por causa disso, mas que se lixe, fodido por fodido pelo menos que dê um bcadinho de gozo. Aqui não posso, claro, é comer e calar e agradecer ao senhor agente a simpatia.

.........
É fácil perceber a alucinante variação dos preços do bilhete na Air Caraïbes. Quando reservei o lugar, quinta-feira ao fim da tarde, havia, num avião de cem lugares, pouco menos de vinte ocupados; quando saímos, no Domingo, havia trinta livres. Cinquenta lugares vendidos em dois dias.

Em Cayenne o voo enche. Há duas escalas: uma em Cayenne, outra em Fort-de-France. Esta deixa-me um certo engulho, porque podia ter passado a noite na Martinique em vez de Guadeloupe. Enfim, não é uma tragédia. A verdade é boa e é que continuo sozinho na minha saída de emergência, com espaço para as pernas, para dormir e para ir para a janela quando levantamos ou aterramos. Podia ser infinitamente pior.

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A chegada à civilização não foi exactamente como eu tinha esperado. Por causa de uma conjunção azarenta entre o meu desinteresse por dinheiro e a minha por vezes excessiva generosidade (excessiva em relação às minhas posses, claro; porque o pessoal da Pousada Portas da Amazónia, onde passei um mês e quase meio, merecia muito mais do que o que eu lá deixei de gorjeta) cheguei à Guadeloupe com muito pouco dinheiro. Na minha cabeça as coisas passar-se-iam assim: um terço para o táxi, um terço para o jantar e um terço de reserva.

O táxi começou por me levar ao hotel mais longe do aeroporto que conhecia; o qual estava fechado. O seguinte também estava fechado; o terceiro exigiu o pagamento à chegada, pelo que tentei um quarto hotel. Neste - já a factura ia a mais de metade das minhas magras disponibilidades - disse-lhe para me deixar.

Mas a senhora da recepção foi inflexível: só dorme depois de pagar. Estava a ver-me a andar para trás no tempo, para aqueles tempos em que dormíamos num barco qualquer  da marina porque éramos novos e aquilo fazia parte do zeitgeist (enfim, do nosso zeitgeist. Não tenho a certeza de que os armadores o partlhassem a cem por cento).

Ainda por cima estava vesgo de fome. Desisti de tentar convencer a senhora da recepção (gostaria que houvesse um inferno só para poder desejar que ela lá ardesse até ao Armaggedon) e fui jantar. Já era tarde (quase onze da noite, o que para estas bandas é tardíssimo, tanto mais agora que estamos na época baixa).

Foi aqui que as coisas começaram a compor-se. Nada corre bem quando estamos com o estômago vazio. O jantar foi um colombo de frango ligeiramente inferior ao meu, mas mesmo assim muito bom. E depois tudo foi ao lugar: graças à colaboração da metade pensante de mim consegui encontrar um hotel que me acolheu sem pré-pagamento; o jovem do restaurante onde jantei deu-me boleia até à porta do dito e abençoado hotel; e - oh bondade divina! - o quarto é esplêndido.

Prometi ao jovem Jonathan que amanhã voltava a almoçar no seu restaurante; agradeci mil vezes a Ronald, o recepcionista do Canella Beach Hotel (e amanhã deixo-lhe uma gorjeta, de menor envergadura do que a da Pousada, mas que o não fará arrepender-se de me ter acolhido). E agora vou dormir, porque gosto muito de montanhas russas mas das a sério, não das metafóricas que se escondem num dia para nos fazer pensar que os contabilistas e os funcionários internacionais talvez não estejam completamente errados.

domingo, 13 de maio de 2012

Bye bye Brazil

Até à próxima, viu?

J'arrive

Une portion d'accras de morue et une autre de boudin, s'il vous plaît. Et un punch pour tout de suite. Apres un blaff de poisson et un pichet de blanc. Merci.

sábado, 12 de maio de 2012

Belém, Pará, Brasil, 12-05-2012

O dia foi de passeio. De manhã para os lados do rio, do mercado, do centro; de tarde para o lado oposto. 

Esta cidade é magnífica. Ver-o-peso deve ser dos mercados mais bonitos, maiores, mais apaixonantes que conheço - e é sem dúvida o que tem melhor vista. É enorme; divide-se por várias áreas, por vários edifícios, pelas ruas. Cheira bem, cheira mal, não cheira, fede, vende tudo e mais alguma coisa e mais ainda. Uma das áreas que não cheira mal é a do peixe, o que pelo menos prova que o peixe é fresco. O resto é uma sequência de barracas, stands, bancas - as da carne são lindas - pessoas aos gritos, música aos gritos, cores aos gritos, tudo grita naquele mercado, mesmo ao lado do rio Guajará, um dos muitos braços do delta do Amazonas. O rio - largo, lento, majestoso - é a única coisa silenciosa naquele mercado.

À tarde foi a vez das ruas largas, passeios larguíssimos - há quanto tempo não via passeios assim - mangueiras grandes e frondosas com as copas a tocarem-se num túnel alucinante, ruas pejadas de autocarros, uns atrás dos outros como só na Londres de antes da taxa vi.

Foi também dos esgotos a céu aberto, dos passeios nos quais não se pode andar a olhar para o ar sob pena de perna partida, ou pior, dos carros com sistemas de som que chegam para pôr um quarteirão inteiro a ouvi-los. Aquilo deve ser a versão brasileira de pôr as canções de que gostamos no Facebook, suponho. Mas no Facebook ouve quem quer, e a música daqueles selvagens ouve-se a centenas de metros - e é má, ainda por cima.

Há aqui um dissonância cognitiva: não consigo imaginar um país assim quinta economia mundial; não bate a bota com a perdigota.

Enfim, amanhã estarei na Guadeloupe, ou seja em França. Vinha a pensar que ali a dissonância é outra: como é possível gostar tanto de la France, e detestar ainda mais la Fraaaaaannnnce? Felizmente é para a primeira que vou, nela que me desloco e respiro; a outra só me chega pelos jornais e pela televisão, que só raramente vejo e leio, graças a Deus. E na qual não penso, porque la France enche-me as medidas todas, faz-me esquecer tudo o mais. Amanhã vai ser dia de vinho tinto, accras de morue, boudin créole, ti'punch e planteur. Dieu est grand et français, tu verras.

A televisão anuncia mais um escândalo com dinheiros públicos. Não há dia, não há jornal que não tenha o seu escândalo; nem o do Cachoeira - um bicheiro que tinha metade da classe política comprada - ofusca os outros. Não sei qual será o resultado disto; de vez em quando matam um jornalista - acho que a conta vai em seis nestes últimos anos - mas, verdade seja dita e honra lhes seja feita, os jornais e telejornais continuam a expor aquilo tudo. É um poço sem fundo.

O fantástico para mim não é que o façam; não sei quando começaram, sequer. É a dimensão e a profundidade da podridão. Esta classe política vê os cargos públicos como um atalho para o enriquecimento imediato; não espera, como a nossa e muitas outras, pela saída do governo para arranjar uns tachos valentes.

Demain la France.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bequia, Grenadines, 26-02-2011


A coincidência foi eu ter pensado à tarde no facto de um gajo ser pago para ser ele próprio – o que não se aplica só aos charter skippers, claro; nada impede um, sei lá, funcionário internacional de ser pago para ser o que é (e ser muito mais bem pago, evidentemente) – e ao jantar, uma bolognese feita pelo Hollie, eu ter contado a história do jantar de Ancona e a Kathrin ter concluído “isso és tu”.

Já por aqui contei a história de Ancona: reduzida à moela, três suecos ricos dão-me boleia em Itália para Ancona e no carro eu conto-lhes o que fazia em Itália e como vivia.”É impossível viver com esse dinheiro por um dia; é o que cada um de nós gasta numa só refeição”. Palavra puxa argumento, argumento desafio e chegados a Ancona eu tenho a missão de lhes mostrar que sim, é possível. Na piazza vejo um grupo de velhotes a jogar a versão local da pétanque e peço a um deles, no meu então aceitável italiano, que me indique um restaurante bom e barato. Para reforçar, conto a história dos suecos. “Estás a ver aquela porta?”, pergunta um deles apontando para uma porta castanha, anódina, anónima. “Estou”; “então aparece às sete e meia (às dez apanhávamos todos o barco para a então Jugoslávia) com os teus amigos. Aquele restaurante é o que procuras”.

Quando abri a porta e entrei caíram-me duas partes constituintes do aparelho reprodutor até ao chão: era visivelmente um restaurante de luxo, e eu nem comendo pão com manteiga durante dez dias compensaria aquela despesa. À medida que o jantar se foi desenrolando as coisas continuaram pelo chão. O dono (por coincidência o senhor que me tinha indicado “aquela porta castanha”) preparara um menu para nós. Foi uma das melhores refeições da minha vida: lembro-me dos spaghetti al ucellini do primo piatto, do Barolo (creio; e se foi, foi a primeira vez que o bebi), da grappa com que terminou o jantar, mesmo antes de se propor levar-nos ao cais.

A conta foi: “o Luigi é meu convidado; para os senhores, cada jantar custa –“ e diz um montante que devia ser um décimo, se tanto, do preço normal daquele jantar e se integrava perfeitamente no valor que eu tinha dado aos suecos como sendo o preço médio das minhas refeições. Imagino que para os suecos ainda hoje devo ser uma espécie de deus da Itália, capaz de comer num restaurante de luxo, ser levado ao porto pelo proprietário em pessoa e pagar o preço de uma pizza nas tascas rascas que então (então?) frequentava.

"Isso és tu”, diz a Kathrin. Não creio. “Eu” é o tipo que é pago para ser skipper, para vos levar a ver a vida nocturna de uma sexta-feira em Bequia, para vos desenrascar quando metem o pé na argola no mercado, para vos reservar uma mesa no Gingerbread ou vos comprar uma lagosta de dois quilos e meio e com isso fazer uma salada para sete pessoas que não, não estava tão boa como vocês disseram, devia ter ficado duas horas no frigorífico antes de passar à mesa, mas enfim, estava comestível e quase se sentia a lagosta; não é o tipo a quem os deuses põem a mão por baixo e decidem oferecer uma flor, uma lindíssima e inesperada flor.

E agora na varanda do Captain Mack's Bar and Galley, um primeiro andar em Bequia com vista para a baía, que de tantos barcos com as luzes de fundeadouro acesas mais parece um prolongamento da cidade – e o prolongamento mais habitado – lembro-me de outra frase a meu respeito, na Ilha de Moçambique, estávamos todos, um bar bonito – acho, mas não tenho a certeza, que também era uma associação cultural – e começou a tocar uma música africana e a Karen diz “this man can move, given the right stimulus”, e eu pensei “o problema, Karen, é que só sei mexer-me se tiver os estímulos certos e eu queria aprender a mexer-me também com os estímulos errados”, e isso é muito mais “eu”.

De qualquer forma a verdade, a verdade única e verdadeira é que quero que a memória vá pentear macacos, apesar de estar sempre a pensar nela e nas coisas que me traz. A memória e não só, claro, há muitas coisas de hoje que também quero que vão para o diabo que as carregue, antes mesmo de passarem a soleira da porta da memória; como a miúda hoje no Mack's, a dançar comigo daquela forma completamente lasciva que elas aqui têm, e eu a certa altura tive de dizer-lhe “stop”. Ela parou logo, verdade seja dita, e aproveitou para me pedir uma cerveja; que lhe dei, claro.

Há festas por todo o lado, hoje, e os restos mesmo assim bastante altos das diferentes músicas chegam a bordo um bocado entrecortados pelo vento. O tempo continua uma porcaria e não é quase de certeza amanhã que saímos para Canouan. Paciência; vou directamente para Mayreau, e se houver tempo (não vai haver) paramos em Canouan à volta. Na quarta-feira temos de estar aqui para tirar os pontos ao Bernie e subir para o Marin com o vento que tem estado vai ser uma tourada.

II

E assim é: mais um dia neste porto do qual um poeta local diz

...Bequia on the world
chart provides a wide deep harbour, not small
or obscure, a trade wind port-of-call
for sailors from around the world

of all persuasions: on the lam
or on the loose, wealthy or poor,
of every creed, language or colour.
I know them. I am one of them
...

III

Há pouco chegou um gajo que se pôs na bóia ao lado de mim; vi que ele pediu ao barco do pão - há um centro comercial flutuante em Bequia, tenho de contar isto - que o levasse a terra e claro que o homem parou no JINGLE quando o chamei.

O tipo - um branco dos seus vinte e muitos trinta e poucos - estava com uma cara de chateado de fazer dó e mandei-lhe uma piada, tipo "vais fazer a volta do padeiro". "Pois, e eu que pensava que ia para a terra", respondeu de mau-humor; a conversa continuou assim até que ele me disse "vou mas é trabalhar como boat boy aqui em Bequia, estes gajos fazem mais dinheiro do que eu". Estava realmente zangado, o rapaz, e ainda mais o ficou quando eu retorqui "good for them". Há provavelmente milhões de brancos a ganharem milhões de dólares mais do que ele, mas que um preto ganhe a sua vida isso é que não.

Isto dito é verdade que Bequia é caro, ultrajosamente caro, e dar quase três euros por uma coisa a que, só por ser feita de farinha (e é do tamanho de um papo-seco) eles chamam pão dói.

Mas as coisas são o que são, chove desalmadamente e o pão - e o tomate e o manjericão e tudo, com a santa excepção do rum - é caro. Consequências sem dúvida do aquecimento global, que tem provocado uma das épocas mais frias dos últimos anos e do mercado, isto anda tudo ligado.

O centro comercial flutuante em Bequia é composto por uma série de botes, o mais das vezes mas nem sempre a motor, que nos trazem pão, fruta, gasóleo, água, gelo, lavandaria, colares e produtos artesanais, peixe, lagosta e levam o lixo (1,30 euros por saco).

I know them. I am one of them.

Belém, Pará, Brasil, 11-05-2012

Há três coisas que gosto de fazer: navegar e cozinhar (e escrever e fotografar, e andar de bicicleta e passear a pé e ler e ouvir música e ir ao cinema... estas listas nunca ficam completas). Hoje cozinhei, pela primeira vez em muitos meses. Enfim, cozinhar é um exagero grosseiro: fritei um chouriço - mau - mexi uns ovos aos quais acrescentei duas malaguetas, cortei um pepino em rodelas (e ainda assei um pimento para logo à noite). Foi tão bom que até lavar a loiça deu gozo, e tive de me conter para não lavar tudo outra vez. Há não sei quantos meses que não me aproximo sequer de um fogão.

Um hostel, que antigamente se designava por albergue de juventude é basicamente uma pousada muito barata, com menos serviços ainda do que uma pousada barata mas com três coisas a mais: limpeza, cozinha e hóspedes simpáticos. Esta nem papel na casa de banho tem - cada um que traga o seu, se quiser. Mas é barata, está bem situada, o Heloísio (o dono) é uma simpatia e os lençóis estão limpos. Pouco mais há a pedir de um sítio onde se vai dormir três noites.

Desta vez não há professoras universitárias de alterações climáticas, coisa que me deixa cheio de pena.

Quando acordar da sesta terei estado em Belém vinte e quatro horas. Há pessoas que se queixam de que o tempo passa depressa de mais...

........
Ao fim do dia o mercado Ver-o-peso fecha e as pessoas deslocam-se para as esplanadas que dão direcatmente para o rio. Há tanta gente de um lado e tão pouca do outro que pensei que aquilo ia virar-se e despejar os clientes para o rio. Não virou, claro; e consegui ficar ali um bom bocado, a ver o pôr do sol, as pessoas a conversar e a comentar o dia que se prepara para acabar, as centenas de bancas desertas, quase todas elas.

........
Reencontro, meio por sorte meio por orientação, um bar onde me lembrava de haver jazz. Há, mas só às quintas-feiras. O bar é giro (chama-se Cosanostra e fica na Travessa Benjamin Constant 1499, se por acaso) mas desconcertante. Tem uma atmosfera de bar, uma decoração de café e um barulho de cervejaria à hora de ponta. Lembro-me que já da outra vez fui no dia errado; apesar disso fiquei contente. Pareceu-me um sítio normal. No caminho de regresso vi dois miúdos de roller skate  na rua e aí sim, tive a confirmação.

Vista de longe São Luís aparece-me como aquilo que me perguntava se era vista de perto: uma cidade balofa e vazia, mal-cheirosa e pedante.

Enfim, exagero um pouco: era pedante, sem dúvida; e mal-cheirosa. Mas tinha o seu interesse. Na verdade isto ocorreu-me muito antes do Cosanostra. Num dos cantos do jardim estava uma banda a tocar. Seria talvez o equivalente local da banda que todas as noites empesta a rua da Tia Dica e do Raimundo (mas paga por eles os dois).  As principais diferenças eram:

  • O local é mais bonito e não cheira mal;
  • A música é melhor;
  • O público muito mais interessante (não havia bêbedos, pedintes, putas, travestis, crackados nem o resto da fauna habitual do Reviver);

Claro que o facto de Belém ter mais gente explica muita coisa; mas não explica tudo.

Fui a uma loja de jornais e o senhor sabia o que era o Economist; infelizmente tinha-os vendido todos. A continuar assim ainda vou encontrar atacadores para os sapatos.