sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Londres, Reino Unido, 03-08-2012

(Isto hoje vai por telegramas, como faz o patrão.)

Nunca percebi a pergunta que se faz quando há boas e más notícias (quais preferimos primeiro?) , se não há má notícia que não arruíne uma boa. Hoje não houve más notícias, só más decisões. São aquelas que a cabeça segue e o corpo rejeita. O pecado religioso em geral e cristão em particular, new-age em mais particular ainda, é a forma, não o conteúdo. Apregoar verdades sobre corpo e mente é uma sobranceria que só se perdoa aos médicos e aos filósofos -- ou talvez só aos últimos, que os primeiros estão cada vez mais desacreditados --, mas uma coisa é certa: devíamos ouvir o nosso corpo mais vezes. Quando nos pede para parar, quando nos pede para agir; quando nos parece que lhe falta um bocado e o sentimos oco ou esburacado. A cabeça arranja explicações para o que sentimos e o que sentimos é subordinado a essas explicações. Sermos incapazes de ouvir o nosso corpo é a prova de que existimos para além dele.

Assim, a premissa de hoje é uma, muito simples: o corpo (ser) e o pensamento são duas coisas diferentes, existem independentemente uma da outra, o que não significa que sejam independentes uma da outra ou de outras coisas. Isto anda tudo ligado.
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F. aparece-me com uns Wayfarer iguais aos que perdi da maneira mais estúpida na semana passada: levados por uma rajada de vento da mesa de uma esplanada para a água. O vento também é independentemente de nós e, no caso, parece ser até independente. Existe mesmo quando não sopra, na memória da minha perda. Eram uns belos óculos tartaruga. A única coisa tartaruga que alguma vez tive -- o cágado Rogério não conta e a sua morte prematura prova que nunca me pertenceu, independência que homenageei com um funeral em caixa de fósforos, a que a minha mãe assistiu, em lágrimas.
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Hoje vi rosas azuis e lembrei-me da minha mãe. Vi um preto lindo de morrer e lembrei-me da minha mãe. Senti-me desesperada e lembrei-me da minha mãe.
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Quando abro os olhos, todos os dias, olho para a escotilha e leio este sinal: «Hatch to be closed at sea». Penso no mar e em como o sinal está para a escotilha como para a cabeça. Ninguém sobrevive no mar se não a fechar vazia, depois de deixar sair o pensamento. Ao contrário de alguns lixos, o pensamento não polui o exterior e não pode ser usado como desculpa para o agravamento do aquecimento global. Que eu não sinto porque, salvo raríssimas excepções, tem feito sempre frio.
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Não sei como sobrevivi a um dia em Londres com umas calças de ganga demodées, uns ténis da nada fashion Decathlon, um casaco cinzento-fato-de-treino e sem uns Wayfarer. Mas ninguém deve ter reparado, porque as t-shirts e casacos Adidas Team GB andam por todo o lado, como os anúncios aos Jogos Olímpicos. A quantidade de pessoas parece a mesma, mas vejo ligeiramente mais japoneses. As crianças que não estão agasalhadas vestem camisolas com a Union Jack, a bandeira mais bonita do mundo, e são geralmente gordas ou bonitas (as gordas não são bonitas, mas a culpa não é delas). É uma pergunta importante: até que ponto se deve alimentar uma criança que nunca parece estar satisfeita? Segundo a minha mãe, passámos por esse dilema: tive de fazer dieta. Continuo a adorar açorda.
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Perdi o day ticket. Sete libras para o galheiro e mais quatro e trinta para voltar a Victoria. Camden Town é longe e as minhas pernas de oito quilómetros a pedalar ontem numa velha ferrugenta contra o vento não aguentariam outra vez o passeio lindo pelo canal.
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Gasto demasiado dinheiro e sinto culpa. Talvez o primeiro passo para deixar de gastar tanto dinheiro será deixar de sentir culpa. Agora não há nada a fazer. A culpa como o arrependimento é pura perda de tempo.
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Leonard Cohen não está muito bem nos meus auscultadores novos. Numa canção diz que é preciso deixar a família para trás -- «You who must leave everything that you cannot control / It begins with your family, but soon it comes round to your soul» --, na outra diz que não vale a pena falar do que nos prende -- «Let's not talk of love or chains and things we can't untie». Nunca apreciei pessoas coerentes, foi uma maneira de me apreciar mais. Agora exijo coerência dos outros como se ela me fosse possível, a mim que me sinto um saco de arroz cru.
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Grão a grão o rapaz preto e maravilhosamente simpático que está à entrada do metro de Swiss Cottage não vai conseguindo encher o balde para ajudar as crianças em África que precisam de água potável (é sempre África, já nem pergunto onde em África, seria preciso ir a um atlas de cada vez que me falassem num dos seus países, ponho a moeda e já está): a abordagem é bastante ineficaz: «aposto que consigo adivinhar a tua data de nascimento!» Depois de 17 tentativas, acerta no mês. Dou-lhe duas libras e digo-lhe «és adorável, mas não vales nada a adivinhar datas de nascimento». Responde-me com um riso que explica porque é que África existe, graças a Deus.
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F. leva-me ao café português em Camden Town onde vai beber café todos os dias. Bebo uma bica portuguesa, deliciosa, e como um pastel de nata que não é dos melhores que já comi mas é decerto o melhor que provei nos últimos sete meses -- escusado será acrescentar que foi o único. Os empregados são portugueses e, perdoem-me o aparente elitismo, diferentes de nós. Vão, decerto, à terra comer chouriças todos os agostos e trazer para casa uma garrafa de aguardente caseira. Estou cada vez mais convencida de que os lisboetas não são bem portugueses, embora apreciem chouriças e aguardente caseira. Lisboa é um país. Na mercearia-café, onde há Sumol e Nestum compro, a dez libras, uma garrafa de EA (que me ensinaram ser infalível) e a oito uma de Vinha da Defesa 2008, que nunca provei. Gasto demasiado dinheiro e adoro a palavra touriga -- nacional é-me indiferente, mas não no vinho.
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Adormeço no comboio. Leio no comboio. Saio do comboio para o autocarro. Leio no autocarro. Tenho frio no autocarro. Saio do autocarro e tenho frio no trajecto que me leva até ao barco. Sinto a cada passo o chão, os músculos das pernas doridos do exercício dos últimos dias, tento não ler as promoções dos restaurantes e o "Portuguese peri-peri" anunciado pelo Nando's. Penso em sentir para suspender o pensamento, suspendo o pensamento de suspender o pensamento e sinto a incapacidade de não pensar. Ser humano é uma doença crónica.
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Descobri que só em português usamos com esse sentido a palavra que melhor define o estado do tempo em Inglaterra: desagradável. Quando está desagradável é isso que está, e aqui está quase sempre.
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O vento aqui já só me incomoda. Para que serve? É como o pensamento. Em estado puro, indomável, para que serve? O vento que sopra aqui só me incomoda, mas incomoda também de onde vem ou para onde vai?, serve para alguma coisa noutro lugar qualquer? Isto, se fosse tão verdade como certo pensamento não servir para nada, levar-nos-ia a uma premissa melhor do que a primeira: o vento é melhor do que o pensamento. Mas não é. O vento aqui já só me incomoda. O pensamento também. Hoje não houve más notícias, só más decisões: a de não fechar a escotilha, por exemplo, porque choveu bastante (dentro do barco e da cabeça). É precisar tratar o pensamento como o vento: se vem em rajadas, deixá-lo passar, deixá-lo ir onde tiver de ir. Se for violento, abrigar-se, deixá-lo passar também. Não lhe dar muita importância. Ele é uma coisa, nós somos outra.
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O vento aqui já não me incomoda. Mas ainda estou muito incomodada.

1 comentário:

  1. MB!
    (ou menos telegraficamente: muito bom, mesmo!)

    Alexandra

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